29.5.07

Ser só, pra ser junto>
Ficar só é um exercício de convivência, uma situação na qual nos submetemos a nós mesmos. É quando a gente descobre o que realmente nos agrada e nos incomoda. Não sei se é assim com todo mundo mas, quanto a mim, não consigo organizar tudo que vivo enquanto vivo. Ser eu é difícil.

Tem gente que precisa de estímulos externos o tempo todo. Alguns conseguem viver e organizar a vida sumultâneamente. Já outros, como eu, precisam de um tempo isolados para pensar nos seus passos (oxalá! as diferenças, afinal).

Considero o mundo tão vasto e dinâmico, que temo me perder por seus becos. Me preocupo em tomar decisões acertadas, em ser sincera comigo. Não tenho lá muitos sonhos, destes que algumas pessoas têm, de coisas concretas. Um futuro rural? Quem sabe meia dúzia de filhos?

O que eu vim fazer aqui é ser feliz. Essa é uma das minhas poucas certezas e a questiono desde sempre. Pouco importa de que maneira e em qual lugar, quero me sentir confortável dentro do meu corpo e ser honesta nas minhas escolhas (e as renúncias?).

É complicadinho. Ao mesmo tempo que somos livres pra eleger nosso rumo, vivemos sob a égide das poucas opções. Há que pagar o aluguel, a comida, o transporte, se divertir, empreender... Tudo passa tão rápido que se a gente não parar um pouco e refletir, já era.

Érico Veríssimo acreditava que "felicidade é a certeza de que a vida não está passando inutilmente." Eu demorei algum tempo para entender essa frase, mas entendi. Considerava uma ambição rala a de desejar uma vida tão apenas 'útil'. Hoje sinto na pele o quão é difícil alcançar a sensação de que os dias, os relacionamentos e o trabalho estão sendo, de alguma forma, proveitosos.

Proveito no sentido mais íntimo que isso possa ter pra cada ser humano. Pra mim, é esta coisa de me olhar no espelho e me reconhecer, saber exatamente quem sou e até onde vou. Meus valores pessoais podem não representar nada para ninguém mas se eu acredito neles e vivo orientada por eles, basta. É claro que mudo de idéias e de ideais, bastante até. Aliás, me incomoda esta rigidez moral que não admite a contradição.

Mas tem coisas em mim que não se corrompem, aconteça o que acontecer. É o caso da minha crença no amor como a maior força transformadora da vida. Por isso, amo. Amo apesar da distância, amo embora não seja correspondida, amo sem querer nada em troca. Amar por si só já é uma restituição, por que é inesgotável, não acaba nunca. Jamais deixei de amar alguém por quem tenha conhecido essa afeição.

Acontece que o amor é sempre constelado por outros sentimentos, como amizade ou desejo, por exemplo. E feito o universo essas estrelas mudam de lugar e dão espaço a outras, como a admiração e a solidariedade. Penso que o respeito é o único aspecto que nunca abandona o amor, sob qualquer circunstância.

Então, embora eu passe fases assim, inebriada com meus botões, e esqueça de procurar os amigos ou telefonar para a família, de responder e-mails ou escrever cartas, não deixo de meditar profundamente sobre a relação que mantenho com cada um deles.

São nesses momentos, de extrema solidão - na concepção mais benévola que essa palavra possa ter - que reforço meus laços com a experiência que mantemos juntos, eu e minha gente amada. São instantes indispensáveis, nos quais reúno todas quem sou e procuro, solitária, ser uma companhia melhor para conviver com todos que amo. E os que ainda hei de amar.

4 comentarios:

elisa dijo...

belíssimo.

JC dijo...

te amo

Maria dijo...

eu te amo.

Bela Figueiredo dijo...

me caiu como uma luva esse teu texto. perfeita em tamanho, maciez, calor, toque. é com isso que tenho lidado, mesmo que cercada de muitas gentes. i will survive!