26.7.16

Nascer mãe aos 40

Foto: Camila Hermes
Marinheiras de primeira viagem, mulheres contam como é encarar a maternidade numa idade mais avançada e cheias de conquistas na bagagem

Num mundo em que as mulheres avançam na conquista de novos espaços na sociedade, ser mãe deixou de ser um destino inexorável e se tornou uma opção. Algumas decidem não ter filhos. Outras enxergam a maternidade como uma possibilidade ou até mesmo um desejo. Só que antes elas querem desbravar novos horizontes e experimentar outros aspectos da vida. Ou seja, deixam a maternidade para depois.


Mas depois do que, exatamente? Um estudo divulgado pelo Ministério da Saúde oferece uma pequena pista para esse fenômeno: segundo a pesquisa, 45,1% das mães de primeira viagem com mais de 30 anos têm níveis mais elevados de escolaridade — 12 anos ou mais de estudo. É uma evidência: elas estão com sede de conhecimento. Estudar é apenas um indicativo da busca por autonomia, independência e reconhecimento profissional.

Foi mais ou menos neste paradoxo que a jornalista Thais Rucker se percebeu quando tinha 30 anos. “Eu sempre quis ser mãe. Eu achava que ia chegar a hora disso acontecer. Estava morando fora, estudando e viajando pelo mundo quando comecei a me questionar sobre isso. Eu pensei: quero ser mãe mas absolutamente nada na minha vida aponta nessa direção. Então, opa!  A coisa não é tão simples. Isso não vai acontecer tão naturalmente, vou precisar agir”, conta ela.



Daniella Goulart, 47, professora universitária 
“Eu engravidei naturalmente aos 42 anos sem planejar. Foi uma gravidez super saudável. Acabei fazendo uma reeducação alimentar e cheguei ao fim da gravidez dois quilos mais magra. O médico achou bem inusitado. Foi uma experiência muito feliz.”

O caminho até a maternidade levou mais oito anos. “Quando voltei de Londres percebi que assim como priorizei estudar, viajar e ter uma carreira, eu teria que priorizar ser mãe. Fui fazer terapia para tentar entender o que de fato eu queria. Só fui ser mãe aos 38. Foi um período muito importante de autoconhecimento e aí deu o tempo certo para eu encontrar alguém bacana, um companheiro, com quem eu realmente me visse compartilhando a vida”, pontua.

Encontrar um grande amor também foi crucial para Isabela Niemeyer, 42, embarcar na aventura da maternidade. “Quando conheci o meu marido, com 35 anos, ser mãe não era uma questão para mim. Mas foi algo natural, que veio junto com o despertar do amor. Eu já havia tido outros relacionamentos longos, de morar junto, mas de repente olhei para aquele cara e pensei: este é o pai dos meus filhos.”

E assim foi. Após alguns meses de relacionamento a distância, Isabela fechou as contas no Rio de Janeiro e se mudou de mala e cuia para Porto Alegre para casar e viver uma vida a dois. “Eu tive a Beatriz com 37 e a Alice com 41. Ser mãe é uma revolução maravilhosa que me traz aprendizados todos os dias. Eu me trabalhei bastante para isso. Um pouco antes de engravidar pela primeira vez eu estava num trabalho que não me fazia feliz. Resolvi tirar um ano sabático e fui fazer muitas terapias. Eu mergulhei em mim e no meu desenvolvimento pessoal”, conta.

Um dos saldos desse período de autoconhecimento foi a decisão de se dedicar integralmente à primeira infância das duas filhas. “No meu processo de descobertas veio muito forte o sentimento de ausência dos meus pais e algumas lacunas emocionais que isso me causou. Nesse momento, decidi que minhas filhas não seriam criadas por babás. Eu percebo que meus pais fizeram o melhor que podiam com as ferramentas que tinham. Mas eu quero fazer diferente. Quero que as meninas cresçam comigo presente, uma presença de qualidade. Eu tenho essa possibilidade e esse suporte do meu companheiro”, salienta.

De surpresa
Na vida da professora universitária Daniella Goulart a maternidade não veio assim tão planejada. “Eu engravidei aos 42 anos. Tinha pra mim que não ia ter filhos. Não queria ser mãe a qualquer preço. Lá no fundinho de mim, mais ou menos aos 38 anos, a maternidade apareceu de alguma forma. Eu pensava: ou é agora ou não vai ser mais. Será que é isso mesmo que quero? E eu me respondia: sim, é isso mesmo. Vamos adiante. Eu já estava com o meu companheiro há 10 anos e ele também não pensava em ser pai.”

Mas eis que veio a comprovação: o resultado do exame deu mesmo positivo e isso traria grandes transformações pelo caminho. A notícia foi recebida de braços abertos pelo casal — uma atitude que a Daniela atribui à maturidade. “Uma grande vantagem de ser mãe nesta idade é que hoje eu tô muito mais serena e mais calma. O mesmo para o meu companheiro. Ele foi pai aos 50. Já estávamos casados há um bom tempo, não tínhamos filhos mas estávamos super tranquilos em relação a esta vontade de viajar, de experimentar, este desejo de conhecer tudo e todos que a gente costuma ter quando é mais jovem. E, olha, para quem falava que não tinha vontade de ser pai, ele se revelou!”, celebra.

Isabela Niemeyer, 45, jornalista 
“A maternidade não é só um mar de rosas. É bem punk também, traz muitos desafios e enfrentamentos. Mas traz este amor imensurável. Esta capacidade de doação e entrega que você nem sabia que existia antes. É chavão, mas é real. Hoje sinto cada vez mais vontade de ser uma pessoa melhor.”

Nascer mãe
Mesmo desejando ser mãe há muito tempo, lendo muitos livros sobre o assunto e embarcando na maternidade aos 40 anos, a educadora física Maria José Goulart acredita que viveu dilemas e inseguranças comuns à gestação. “Apesar de ter idade, a minha experiência com maternidade era zero. Eu ajudei a cuidar de meus irmãos, fiz cursos de preparação para o parto, mas eu também tive todos estes medos que qualquer grávida tem. A idade não muda em nada isso. Eu não me senti mais segura”, afirma.

Desde os 30 anos Maria José alimentava o sonho de um parto natural, de cócoras. "Eu sempre quis ter um parto normal e pensava que isso era bem fácil. Só que quando engravidei percebi que para ter um parto normal a gente tinha que batalhar bastante. Foi só depois das 20 semanas de gestação que encontrei um médico que me fez me sentir segura. O primeiro médico classificava o meu parto como de altíssimo risco. Claro, há riscos de o bebê nascer com alguma síndrome. Mas eu tenho certeza de que uma mulher só engravida quando ela está saudável. Hoje eu sei isso. Naquela época eu não sabia.”

Neste contexto, a doula de Maria José exerceu um papel fundamental. “Minha doula sempre fazia eu me encher de orgulho por estar gestando um filho aos 40 anos.” O parto foi ainda melhor do que o sonhado por Maria José e — apenas quatro anos depois — ela deixou a profissão de lado para dedicar-se à doulagem. Hoje é mais conhecida como Doula Zezé. “A vida de doula é uma missão que chegou até mim por intermédio do meu filho. Quando tive que lutar para me preparar para o nascimento dele, encontrei uma doula que me ajudou a fortalecer aquilo em que eu já acreditava, mas que a cultura tentava de toda forma me roubar.”

Atualmente Zezé acompanha diversas gestantes, dá formação para doulas e dá especial atenção a grupos de vivências para casais grávidos. “Ter um parto natural de cócoras aos 40 anos foi pra mim a oitava maravilha do mundo. Os profissionais não acreditavam e continuam não acreditando que mulher pode ter parto natural. As taxas de cesáreas nos comprovam isso. Temos uma geração inteira de mulheres que fizeram cesariana. A maioria das mulheres acabou fazendo partos cirúrgicos simplesmente porque os médicos queriam testar ou praticar o seus conhecimentos para isso. E o marketing vendeu muito bem a ideia de que a cesariana era um parto sem dor”, lamenta Zezé.

Isabela também se sente contrariada ao lembrar que o parto da primeira filha foi uma cesárea. “Hoje considero que não havia necessidade. Tive um acompanhamento médico com o qual não estava satisfeita, mas eu não tinha informação na época. Minha segunda filha nasceu de parto normal domiciliar”, afirma.

Realizações e inquietudes
Mesmo não tendo cultivado a maternidade como uma meta a ser alcançada, como ocorre com muitas mulheres, Isabela acredita que foi a melhor coisa que aconteceu na sua vida. “É um amor que não cabe no peito. Isso é realmente impressionante. O amor te engole de uma maneira sobre-humana, que só de falar sobre isso agora as lágrimas correm sem que eu possa controlar. Você não imagina o quanto é capaz de amar até ser mãe. Talvez uma pessoa que se dedique a trabalhos voluntários também sinta isso. É uma doação e entrega total”, sustenta.

A satisfação inenarrável é unânime entre as entrevistadas. “Eu sempre fui muito livre e independente. Eu sou muito feliz tendo um filho, mas era muito feliz também sem ter o Gabriel. A minha realização não passava pela maternidade. Agora, é verdade que ser mãe me realizou muito mais. A vida se divide em antes do Gabriel e depois do Gabriel. Pra mim foi um presente para eu aprender a ser menos egoísta e pensar menos em mim. Porque é uma doação e isso te transforma como ser humano. Hoje sou uma pessoa muito melhor. Cuidar dele foi o grande presente que recebi nesta vida", ressalta Daniella.

Para Thais, que pariu Camilo há apenas seis meses, o puerpério está sendo mais intenso do que ela podia vislumbrar. “Eu já tinha lido bastante sobre, faço parte de diversos grupos de discussão, me preparei para isso. Agora estamos numa fase mais leve, mas essa fusão mamãe-bebê é maior do que eu podia imaginar, eu não tinha a dimensão. Só vivendo pra saber o quanto é louca essa fusão. Essa coisa de sentir seu corpo do lado de fora. Foi muito mais devastador e sublime.”


Maria José, 56, doula “Acho que a mulher moderna tem esta visão de que podemos fazer muitas coisas da nossa vida. Antes as mulheres casavam e tinham que ficar em casa e cuidar dos filhos. Essa era a única possibilidade que elas tinham. Não tinham sonhos de fazer nada diferente. E eu já me vi bem cedo querendo fazer outras coisas.”

Para Zezé, que pariu aos 40 e hoje está com 56 anos, a maternidade foi a revolução. “A maternidade trouxe tudo que eu sou hoje. Eu tenho absoluta certeza que meu filho foi um presente pra mim. Cada mãe tem seu filho reservado pelo universo na medida do seu amor, da sua força e do seu desejo. Em algum lugar esse encontro está marcado. Pra mim, foi no tempo certo, na hora certa. Na hora que eu precisava dele e ele precisava de mim nossos espíritos se encontraram. Meu filho mudou vida e minha profissão.”

Amor e disposição
Com um histórico de partos saudáveis, as entrevistadas pontuam poucos aspectos em que não há vantagem na maternidade perto dos 40. Talvez apenas a falta de pique dos 20 anos tenha sido lembrada por todas. “Pra mim, a coisa que mais pesa é o fato de eu ter vontade de ter um terceiro filho agora”, sintetiza Isabela. Para Zezé, a grande questão diz respeito ao desejo de conhecer os netos. “Eu cuido bastante da minha saúde para ter energia para brincar com meus netos”, garante.

No coração de Daniella, também há uma pontinha de preocupação com a longevidade. “Dois anos depois que o Gabriel nasceu eu tive alguns cistos no ovário e acabei tendo que tirar útero. Um pouco depois o pai do meu filho teve um câncer de estômago. Então a gente acaba ficando com um receio. Mas também acho que nada é permanente e ninguém tem controle de nada. Então a gente vive todos os dias intensamente com ele.”
Foto: Camila Hermes
Thais Rucker, 38, jornalista 
“Eu lembro de em algum momento ter olhado em volta e percebido que todas as minhas amigas de infância já estavam no segundo filho, com uma vida super estabilizada. E eu estava voltando de uma viagem com a minha mochila nas costas. Eu achei muito cruel, porque a cobrança que eu sentia era mais ou menos assim: tu tem que viajar muito antes de casar, tem que namorar muito, tem que ser bem-sucedida, tem que ter teu dinheiro, tem que ser independente, tem que ter a tua casa. Eu botei isso na cabeça e fui atrás. E quando vi até a Sandy, que era apenas uma criança cantando quando eu já viajava sozinha, já estava grávida. Mas olhando pra trás não me arrependo. Naquele momento essa não era a vida que eu queria, mas depois eu mudei e fui construir outro sonho. Eu vejo muitas vantagens em ter sido mãe mais tarde. Eu me sinto mais preparada para encarar esse desafio.”

27.5.16

coisas que a gente cria

"coisas que a gente cria" é um projeto muitíssimo inspirador sonhado & realizado pela jornalista barbara nickel. trata-se de uma série de entrevistas com pessoas que interagem com o MUNDO de uma maneira criativa ou inovadora, digamos assim.

então eu fiquei ponderando MUITO sobre "o que será que eu tenho pra dizer?" quando a bárbara me convidou para ser uma das entrevistadas. mas topei, né? que eu não sou mulher de ficar dizendo não por causa de medinho.
hoje, ouvindo a entrevista (AQUI), admito que fiquei meio constrangida com um tanto de bobice que eu disse e também me critiquei por não ter sido tão clara em algumas respostas, especialmente às relacionadas ao ‪#‎yoga‬.

contudo, a verdade-verdadeira é que eu sou toda errada mesmo. e tudo bem. seguimos dançando no baile da VIDA como ela é!
gracias mil Barbara Nickel pelo carinho e por este trabalho tão legal que você tá fazendo. gracias também pra mari e Joelma Terto que me meteram nesta!
aos amigues que escutarem, me digam alguma coisa a respeito! e ó: os outros podcasts são ‪#‎maneiríssimos‬! eu ouvi o da Mariana Bandarra e da Nanni Rios achando deliciosurante do início ao fim!
é isso.

9.5.16

o que é yoga para você?

como alguns de vocês sabem, em 2013 eu resolvi tirar um antigo sonho do fundão do baú e me tornei professora de yoga

esta é uma realização que transformou PROFUNDAMENTE a minha vida e sobre a qual quero começar a escrever mais a partir de agora. 

aproveitando o momento de atualização do blog, compartilho este LINK para uma entrevista que dei ano passado sobre o que é yoga para mim y otras cositas más. 

namaskar!


5.5.16

bruxaria en bici


Especialistas em si mesmas

Adeptas defendem ginecologia natural como um caminho de cura, autonomia e empoderamento da mulher



Antes de avançar na leitura deste texto, que tal uma pequena pausa? Feche os olhos, respire profundamente e observe como você se sente neste momento. Talvez você esteja com algum desconforto emocional, uma dorzinha nas costas, um cansaço acumulado, quem sabe até um pouquinho de cólica ou - que maravilha! - completamente saudável e equilibrada. Agora, pergunte a si mesma: o que você realmente entende sobre o funcionamento do seu corpo?


O fato é que sabemos pouco sobre nossos sistemas e ciclos. Claro, há uma sabedoria intrínseca sobre si mesma em cada mulher. E é nesse poderoso autoconhecimento que a ginecologia natural se sustenta. Ginecologia é literalmente “a ciência da mulher”, mas na medicina convencional acaba se restringindo à especialidade de tratar doenças ligadas ao sistema reprodutor feminino, útero, vagina e ovários. Com uma abordagem diferente, a ginecologia natural incorpora as dimensões emocionais e espirituais como imprescindíveis para identificar a origem de desequilíbrios ginecológicos. Além disso, os tratamentos podem utilizar ervas, alimentos, pedras, argila e outras terapias holísticas.

A obstetriz argentina Liliana Pogliani, 49, explica que a auto-observação é um princípio fundamental para manter o equilíbrio ginecológico. “Quando a mulher realiza uma escuta amorosa do seu corpo e das suas emoções, acaba entrando em contato profundo com o seu feminino, ela mesma é capaz de identificar a sua harmonia ou o seu desequilíbrio ginecológico. Muitas questões podem ser resolvidas com o uso de plantas medicinais, receitas caseiras e mudança de hábitos”, pontua.

A mestranda de antropologia Naíla Andrade, 33, é adepta da ginecologia natural e acredita que para manter a saúde em dia é fundamental mudar a visão que temos sobre nosso corpo. “Nós, mulheres, temos crenças e padrões antigos enraizados que repetimos inconscientemente. Por um lado a religião criando tabus sexuais e idealizando imagens femininas e por outro lado a ciência tentando nos transformar em máquinas”.

Mais responsabilidade e autonomia

Na prática, boa parte das mulheres acaba delegando os cuidados com a própria saúde aos médicos. A visita ao ginecologista, claro, não deve ser descartada. “A ginecologia natural não se opõe à medicina convencional. É bom fazer um check-up e obter um diagnóstico. Mas é essencial ter a consciência de que cada enfermidade física surge para que eu veja algo sobre mim mesma. É uma oportunidade de reconhecer que algo não está bem. O corpo é sábio e nos dá avisos”, sublinha Liliana.


Nesse sentido, a educadora perinatal e parteira Andressa Feltes, 27, vê a ginecologia natural como uma forma de conquista da autonomia. “É preciso que sejamos corajosas o suficiente para sair da zona de conforto. É muito fácil chegar no ginecologista, falar sobre sintomas, tomar um remedinho mágico e fim de papo. Acabou-se a dor e eu nem tive que me envolver em nada. Não tive que fazer grandes mudanças no meu ser, não tive que mexer nos meus padrões de comportamento e sigo assim, bem cômoda, como se nada estivesse acontecendo realmente na minha vida”, argumenta.

Naíla salienta que é necessário abandonar a ideia de que o corpo é uma máquina cujo funcionamento não entendemos e que precisa ser controlado por especialistas. “Tudo o que ingerimos, sentimos e fazemos se manifesta em nosso corpo e nossa saúde. Precisamos fazer essas conexões, ler esses sinais e conhecer as formas de lidar com ele. A ciência moderna produziu muitas cisões e dicotomias que persistem fortes ainda na mentalidade e nas práticas de hoje - como a separação corpo e mente, natureza e cultura, ciência e conhecimento tradicional”, destaca.

O exercício da ginecologia natural é, para Naíla, uma oportunidade de conectar-se consigo mesma e com outras mulheres. “Buscamos resgatar conhecimentos ancestrais, práticas que nossas avós costumavam fazer e que a ciência de povos não ocidentais vem cultivando há milênios. A essência disso está em observar a natureza ao redor e buscar relacionar nosso corpo com o que fazemos e vivemos. Não nos separando do mundo. O conhecimento da ciência pode contribuir muito se incorporado a essa visão, mas atualmente a ciência moderna está comprometida com indústrias farmacêuticas que transformam nosso corpo e nossa saúde em um grande negócio”.

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Aprendizado coletivo

A obstetriz Liliana mudou seu rumo profissional influenciada pelo conhecimento trazido por suas pacientes. “Eu atuei como parteira por mais de 20 anos em hospitais públicos e nascimentos domiciliares. As mulheres sempre tinham seus segredinhos de remédios naturais e eu fui testando em mim, estudando as bases científicas, e vi que havia muita sabedoria naquelas tradições orais que passavam de geração para geração”, diz. Atualmente, Liliana se dedica a compartilhar seus saberes sobre ginecologia natural em oficinas, cursos e círculos de mulheres dentro e fora da Argentina. “Tudo é factível de cura. O desequilíbrio ginecológico sempre vem para que eu amplie a confiança na minha capacidade de cura”, reforça.


A acupunturista e fitoterapeuta Mariana Almeida, 28, trabalha exclusivamente com mulheres e também ministra oficinas. “Conhecer o próprio corpo é uma questão de empoderamento. Quando eu me conheço, me sinto dona do meu corpo, assumo a responsabilidade por ele e passo a me cuidar mais”, destaca, acrescentando que é comum o fato de mulheres terem dificuldades em se relacionar com seus ciclos e sua sexualidade. “A maneira como a gente trata a menstruação, o tesão, a libido etc. está muito ligada à cultura do patriarcado”, avalia.

Na internet, a fitoterapeuta também é conhecida pelo codinome Senhora Verde. Além de manter páginas de dicas, Mariana edita a fanzine Manual de ervas para os ciclos femininos, que é distribuída online e conta com milhares de downloads, facilitando o acesso a informações básicas para feitios caseiros. “Somos perfeitas e orgânicas”, resume Andressa, que percorre o Brasil e outros países compartilhando informações com outras mulheres. “Eu já vi muitas mulheres curando-se de desequilíbrios fortes utilizando terapias naturais”.

Território sagrado

Historicamente sexualizado, moralizado ou tratado como um objeto para fins reprodutivos, até hoje o corpo feminino permanece um tabu. Ao trazer um retrato sobre a medicina e o corpo feminino entre os séculos XVI e XVII no Brasil, a historiadora Mary Del Priore nos aponta uma reflexão sobre esse tema. “O corpo feminino era visto, tanto por pregadores da Igreja católica quanto por médicos, como um palco nebuloso e obscuro em que Deus e o Diabo se digladiavam. Qualquer doença, qualquer mazela que atacasse a mulher, era interpretada como um indício da ira celestial contra pecados cometidos”, pontua Mary.



























Claro, 
muita coisa mudou de lá para cá, mas as semelhanças ainda são estridentes na vida das mulheres. Na opinião de Naíla, o autoconhecimento é o melhor caminho para mudar essa realidade. “Precisamos nos conhecer, nos olharmos, tocarmos, trocarmos com outras mulheres sem nojo ou vergonha. Precisamos olhar para nós mesmas, para o nosso corpo e conhecê-lo, sentir prazer com ele e sentir prazer em ser mulher. O resultado é libertador”, garante.

A doutora Liliana reforça esse ponto de vista: “Nossos corpos são sagrados. A partir do momento que me conheço e sinto o que se passa dentro de mim, estabeleço um diálogo com meu feminino que tem efeitos em todas as áreas da minha vida, inclusive na sexualidade. Algumas vezes o equilíbrio ginecológico é alterado simplesmente porque desrespeitamos o nosso ritmo durante o ato sexual. Às vezes a vagina precisa de mais tempo, mais suavidade. Noutras vezes, não estamos bem no relacionamento. Tudo influi”, sugere Liliana.

Existem muitas maneiras de exercitar o contato com o corpo: aprendendo a utilizar o espéculo ginecológico, observando texturas, cheiros e cores de nossos fluídos. “Podemos nos observar com espelhos, praticar a masturbação, ter uma relação amigável com nossos ciclos e buscar informação. Se eu percebo o meu corpo como um território sagrado, eu consigo estabelecer uma relação mais consciente com meu tesão e minha sexualidade”, destaca Mariana.

Outra boa receita para manter a saúde do corpo é ter orgasmos, ressalta Andressa, elencando inúmeros benefícios: “O orgasmo é poderoso pois libera toxinas, aumenta a quantidade de oxigênio no corpo, produz hormônios de felicidade, diminui estresse, ansiedade, depressão, mantém a musculatura uterina relaxada, evitando cólicas, TPM, e todos os outros desequilíbrios ginecológicos. Com a liberação dos fluídos do útero na hora do orgasmo, acontece uma limpeza natural, deixando a flora vaginal em constante transformação, evitando a proliferação de fungos e bactérias. E também porque é uma delícia, né?”



4.11.15

Alzheimer dentro de casa

Quando um familiar é diagnosticado com a doença, todos precisam mudar o estilo de vida para acolher essa nova realidade. Mas quem cuida dos cuidadores?


Vez ou outra um amigo próximo aparece com a grave notícia: alguém na família dele está com Alzheimer. É sempre delicado lidar com esse diagnóstico. Mas e quando acontece com a gente? Será que estamos preparados para viver essa situação? Geralmente, não. É o que aponta a gerontóloga Maria Leitão Bessa, que há anos se dedica a orientar sobre os procedimentos voltados à assistência ao paciente com Alzheimer. “É comum ter algum membro da família que não entende e não aceita a doença. Realmente pode ser muito pesado e conflituoso”, salienta.

A Doença de Alzheimer (DA) é uma enfermidade incurável, que se agrava ao longo do tempo, mas pode e deve ser tratada. Quase todas as suas vítimas são pessoas idosas. A doença se apresenta como demência ou perda de funções cognitivas (memória, orientação, atenção e linguagem), causada pela morte de células cerebrais. Quando diagnosticada no início, é possível retardar o seu avanço e ter mais controle sobre os sintomas.

Maria Leitão é presidenta da ABRAz – Associação Brasileira de Alzheimer, uma rede de pessoas e organizações nacionais e internacionais que se dedicam a oferecer apoio social, emocional e informativo a familiares de pessoas com a doença. “Nossa missão está focada justamente em cuidar de quem cuida”, define, acrescentando que existem inúmeras maneiras de criar uma convivência harmônica e amorosa no âmbito familiar.

Susto inicial

Esse suporte fez bastante falta para a família da secretária Laura Maynart, 52, quando eles receberam o diagnóstico da doença da sua mãe, há 5 anos. “Primeiro ela teve uma depressão e os sintomas de pânico; a confirmação de Alzheimer veio depois, com exames pedidos pelo neurologista. Somos nove filhos. Meus pais moravam sozinhos e, a partir do diagnóstico, foram morar com uma das minhas irmãs. Mudou completamente a dinâmica da família”, ressalta.

Tal e qual ocorreu com a família de Laura, é comum que os cuidadores tenham que se adaptar aos desafios de cada fase da doença, que é progressiva e não tem cura. “Depois de 3 anos, quando ela passou a necessitar de maiores cuidados, decidimos colocar meus pais num apartamento com duas cuidadoras. No final daquele semestre, as crises dela foram aumentando, andava sempre angustiada… Enfim, a solução foi dividir nossos dias e finais de semana cuidando deles”, detalha.

Acostumada a ver o pai sempre altivo e lúcido, a advogada carioca Marcella Carvalho, 51, teve um baque com a descoberta da doença. O caminho até o diagnóstico foi tortuoso. “Eu dizia que meu pai havia sido abduzido. Fizemos uma verdadeira peregrinação em psiquiatras que deram vários diagnósticos, de depressão a demência senil. Nessa fase, ele teve que tomar vários remédios, que o deixavam cada vez mais perturbado, sonolento, caindo pela casa. Ele perdeu totalmente a censura e somente em 2010, dois anos depois dos primeiros sintomas, conheci um médico neurologista que foi taxativo ao dizer que meu pai realmente tinha a doença”, recorda.

Mãos dadas para seguir

Somente quem convive com o paciente de Alzheimer entende o quanto é importante o contato e o carinho dos familiares. Mesmo em famílias numerosas, em geral alguém é eleito para cuidar do paciente e aprender como lidar com os desafios que surgem a cada dia. Na família da professora Maria Inês Antunes, 48, a escolhida foi ela. “É muito difícil lidar com o cotidiano. Muitas vezes me senti esgotada, sem paciência e culpada por não estar 100% disponível”, conta.

Foi num grupo de apoio, em São Paulo, que Maria Inês encontrou forças para seguir. “Eu cheguei lá achando que o meu problema era o único, o maior do mundo, e logo percebi que isso era uma bobagem. Ali, muitas pessoas estavam vivendo coisas parecidas e isso me trouxe amparo e tranquilidade para desabafar, além de trocas de experiências que fizeram diferença no cuidado com a minha mãe”, pontua.

Questão de gênero

Numa sociedade que delega a responsabilidade do cuidado e a gestão das emoções às mulheres, não é de se estranhar que esta reportagem traga apenas o olhar feminino sobre a convivência com a Doença de Alzheimer. De acordo com Maria Leitão, mais de 90% do público que frequenta os grupos de apoio da ABRAz em 21 estados brasileiros é formado por mulheres.

Por isso, o debate sobre gênero é um aspecto importante também nesse ambiente. “Nós temos 95 grupos de apoio pelo Brasil, com atendimento a aproximadamente cinco mil pessoas por mês. Via de regra a responsabilidade maior recai sobre uma mulher. Os homens acabam se limitando às atividades que exigem força, como carregar o paciente. Isso precisa ser transformado”, defende Maria Leitão.

O trabalho da ABRAz se divide em dois tipos principais: os grupos informativos ─ que realizam encontros mensais com a participação de profissionais como nutricionistas, odontólogos, fonoaudiólogos e farmacêuticos; e os grupos de amparo psicológico e social. “Boa parte do nosso trabalho é ajudar a família a se organizar na gestão do cuidado. Ajudamos a fazer um planejamento com distribuição de tarefas e plantões”, explica Maria Leitão, que também é Conselheira Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa.

Amor ampliado

Talvez uma das maiores dificuldades das pessoas que cuidam de pacientes com DA seja o isolamento. “No início, eu me senti muito sozinha, desinformada, sem ter com quem conversar. Encontrei muita compaixão entre amigos e, aos poucos, fui me sentindo confiante para expor meus sentimentos em relação à doença. Algumas vezes sinto coisas que não são virtuosas e isso me faz sofrer mais”, desabafa Maria Inês.

Para Marcella, a amorosidade é o melhor caminho para superar os obstáculos. “O mais difícil é ver aquele pai amoroso, que lia, opinava, discutia, não existir mais... Em uma das nossas últimas conversas, notei que ele não conseguia se lembrar nem do nome do neto, isso dá uma tristeza grande, por mim, por ele, pela família. Por outro lado, ele despertou em mim um carinho novo, surpreendente. Sinto vontade de agradá-lo e me esforço por uma comunicação não verbal, por uma delicadeza que só posso traduzir em atos.”

A experiência de Laura é parecida. “Eu, particularmente, vejo a importância de dar amor e carinho sempre que posso, lembrando que ela me deu a vida e sou eternamente grata por isso. Eu dava banho nela, brincando o tempo todo, e na hora que eu secava os pés dela, ela queria me beijar e me agradecer por estar fazendo isso; eu sempre me emocionava e falava ‘imagina mãe, eu faço porque te amo’”, conta, emocionada.

Mesmo que o amor prevaleça, muitas vezes a rotina acaba sendo extenuante. As informações ao paciente têm que ser repetidas várias vezes, a compreensão é difícil, os gestos são mais lentos: é preciso muita paciência. Mas, para Laura, um dos pontos mais difíceis é lidar com a falta de memória. “Ela não sabe quem eu e meu irmão somos. A última pessoa de quem ela esqueceu foi o meu pai, que faleceu há dois meses. Às vezes ela pergunta por ele, que foi seu amor da vida toda.”

 

15.5.15

bataclã fc e mastigadores de poesia

no mês passado a banda bataclã fc fez um lindo show no bar ocidente, em porto alegre, com a participação de um monte de #MastigadoresDePoesia

foi uma noite linda, de muitos devaneios ritmados na palavra e na música. 

eu também participei e o registro deste momento -  que para mim foi muito lindo - está no vídeo abaixo!


8.5.15

Elas abraçam o arco-íris da diversidade

Organizadas no movimento “Mães pela Igualdade”, mulheres de todo o Brasil estão unidas para defender os direitos de seus filhos e de toda a comunidade LGBTT. Conheça um pouco desta história! 


Maria Claudia (D) e sua filha Isabella: unidas por um mundo com mais amor
Mãe de três meninos, a escritora e professora carioca Georgina Martins, 55, sempre soube que o filho do meio, Camilo, 21, seria gay. “Assim como algumas pessoas nascem com os olhos castanhos e outras nascem com os olhos azuis, meu filho nasceu gay. Eu sempre soube disso e pude me preparar para enfrentar os preconceitos que certamente viriam”, afirma.

Filha de nordestinos que se mudaram para o Sudeste, Georgina sabe bem o que é conviver com estigmas e intolerâncias. “Aqui em casa o combate ao preconceito sempre foi uma militância. Por isso, quando o Camilo saiu do armário, aos 13 anos, todos aceitamos numa boa”, garante. Fora do núcleo familiar, contudo, o mundo pode ser mais hostil. “O Camilo cresceu ouvindo piadinhas na escola e tive que ir várias vezes conversar sobre isso com a direção”, conta Georgina.

A experiência da terapeuta cearense Maria Claudia Cabral, 44, é parecida. “De alguma maneira, eu intuía que a minha filha era lésbica. São coisas sutis, algo na maneira de ser dela. Quando ela me contou, não houve surpresa. Ela é uma guerreira, maravilhosa”, destaca Maria Claudia, que desde o primeiro momento abraçou a opção de Isabella, 22. “Me senti convocada a tomar mais providências contra o preconceito, que está por todos os lados. No meu círculo de amigos, virei a chata da mesa e não deixei mais passar nenhuma piadinha sobre gays”, ressalta.


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Infelizmente, as histórias de aceitação familiar são uma exceção à regra. “Meu filho tem vários amigos que foram espancados ou expulsos de casa por serem gays. É realmente muito difícil para algumas famílias, mas precisamos tentar. Quem não tem apoio das mães e dos pais vai sofrer toda a sorte de preconceitos na rua e chegar em casa sem ter com quem compartilhar ou abraçar”, salienta Georgina, que é autora de quatro livros infantojuvenis com a temática da diversidade afetiva e sexual.




Peito aberto, bandeira em punho

Maria Claudia e Georgina fazem parte de um grupo admirável: o de mães que decidiram não apenas acolher a natureza de seus filhos, mas também alçar a voz e levantar bandeiras em defesa de toda a população LGBTT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transgênero). Ao lado de mulheres de todo o Brasil, elas militam no movimento político suprapartidário Mães pela Igualdade, criado em 2011 com o objetivo de promover ações em nome do respeito à diversidade e igualdade de direitos.

Tudo começou quando o controverso Deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) disse - faz alguns anos - que preferia ter um filho morto em algum acidente do que ter um filho gay. Não deu outra: as mães de LGBTTs ficaram revoltadas e resolveram fazer desta declaração azeda uma boa limonada. Assim, com o apoio da All Out (ONG internacional que atua pelos Direitos Humanos), foi realizada uma campanha para dar visibilidade ao tema.

“Nesta ocasião, nós fizemos uma petição on-line e participamos de uma exposição de fotos ao lado dos nossos filhos. Também havia fotos de mães que perderam seus filhos para a homofobia”, lembra Maria Claudia. A mostra fotográfica foi realizada no Congresso Nacional, em Brasília, e também em praças do Rio de Janeiro. A pauta conquistou projeção internacional e as mães decidiram dar as mãos na criação do movimento. “Estamos causando um rebuliço. Como mães, sabemos que temos um lugar de fala privilegiado e conseguimos romper algumas barreiras que nem o movimento LGBTT consegue, por causa do preconceito”, afirma.


De filha para mãe

A bancária aposentada Leda Ozório, 67, também aderiu ao Mães pela Igualdade. De acordo com ela, a disposição para a luta é um exemplo que recebeu da filha do meio. Em 2011, a designer Katia Ozório, 41, e sua namorada, a jornalista Leticia Perez, 40, entraram para a história por uma conquista inédita: após larga batalha judicial, as duas foram o primeiro casal homossexual a conquistar o direito ao casamento civil no Brasil.

“Minha filha foi persistente, ela foi em frente e eu cresci bastante com ela”, afirma Leda, que condena a hipocrisia da sociedade. “Infelizmente nossa sociedade é hipócrita. Convive com homens espancando esposas, matando ex-companheiras, incendiando namoradas, mas finge não aceitar pessoas do mesmo sexo convivendo com carinho e afeto”, lamenta.

“Eu vejo que para minha mãe foi muito importante entrar em contato com o grupo. Ela sempre aceitou a minha sexualidade e isso facilitou muito a minha vida. Mas vi que ela se emocionou ao ouvir os depoimentos de outras mães, que tiveram inclusive os filhos assasinados por serem gays. Ela sempre teve vontade de militar pela causa e o Mães pela Igualdade abriu esta oportunidade”, avalia Katia.


          Leticia (E) e Katia comemorando o casamento (Arquivo pessoal)


Tão perto, tão longe
Juntas desde 2006, Katia e Leticia vão comemorar dois anos de casamento em 2015. “Conseguir casar foi um embate muito desgastante, mas valeu a pena. Estamos felizes, ou seja: não pretendemos lutar pelo divórcio gay”, brincam. Por trás da história de amor e coragem que as duas escrevem juntas, há uma trajetória bem diferente no processo de assumir a orientação sexual.

“Para mim foi tranquilo. Eu tinha 16 anos e meus pais e irmãos lidaram bem. Acredito que isso interfere muito na autoestima e confiança da pessoa”, diz Katia. Para Leticia, no entanto, abrir as portas do armário significou fechar as portas de casa. “Eu deixei uma carta para os meus pais contando e fui viajar no final de semana com a minha namorada na época. Quando voltei, fui expulsa de casa”, relembra.

Filha de médicos, nascida e criada em uma cidade no interior do Rio Grande do Sul, Leticia avalia que teve uma educação rígida. “Fui educada em um ambiente em que tudo o que era diferente não era bom. Na escola, a mínima manifestação de criatividade era punida com rigor. Eu tinha 23 anos quando assumi minha orientação afetiva e fiquei atordoada com a falta de apoio”, conta.

Sem ter para onde ir, Leticia encontrou abrigo na casa da avó materna. “Eu ouvi as piores coisas da minha família, inclusive que eu era uma aberração. Fiquei deprimida por muito tempo, parei a faculdade e não conseguia trabalhar. Levei tempo para me levantar.”

A maior lição que Leticia carrega disso tudo é a resiliência. “Eu fui adiante. Aprendi que não tinha culpa pelos meus sentimentos e que a OMS (Organização Mundial da Saúde) já havia retirado há muito tempo a homossexualidade da lista da CID (Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde). Só meus pais, médicos, é que não sabiam.”

Os desafios impostos pelo conflito familiar ampliaram a determinação de Leticia na busca por seus direitos. “A Constituição me garante viver em um país livre. Ninguém pode me impedir de exercer a minha cidadania e dignidade. Eu me expresso em todos os ambientes, inclusive no familiar. O Estado não quer saber a minha orientação afetiva na hora que eu pago o imposto de renda, então, isonomia de direitos é o básico”, defende.


Amor e superação

A reaproximação de Leticia com sua família veio há dez meses, acompanhada de um diagnóstico médico: a jornalista está na luta contra um câncer no intestino. “Foram muitos anos de exclusão do círculo familiar e nas poucas vezes em que estivemos juntos sempre rolou um climão. Agora estamos bem. Está sendo muito importante o apoio da minha mãe, do meu pai e das minhas irmãs. Acredito que tudo isso faz parte de um grande resgate, um processo maior de aprendizado. Estamos nos curando juntos”, afirma Leticia.

A comunicadora acredita que é possível construir uma sociedade em que outras pessoas não precisem passar pelo abandono familiar. “Pensando nesse sofrimento, acho que poderíamos aproveitar que estamos no século XXI e abrir mão dos preconceitos. Deixar que o amor prevaleça, independente de qualquer coisa. Eu entendo que muitas famílias não saibam lidar com essa situação, é normal, mas sempre é possível buscar apoio”, sustenta.

Mesmo no meio de um exigente tratamento quimioterápico, este ano Letícia viajará de Brasília para Porto Alegre exclusivamente para passar o dia das mães ao lado da sua. “Ela me enviou uma passagem e vai ser muito bom. Nem sei há quanto tempo não passamos a data juntas. Minhas irmãs também vão. Estou feliz! Será só alegria! Só coisa boa! Enfim estamos começando a colocar as coisas nos trilhos”, celebra.




  

DIÁLOGO, AMOR E EMPATIA

O Mães pela Igualdade não é um grupo de apoio e acolhimento familiar, mas existem diversos núcleos de diálogo com este caráter no Brasil. “Nós recebemos e conversamos com todas as mães e todos os pais que entram em contato conosco, mas temos um papel mais político de defesa dos direitos junto ao Estado”, salienta a terapeuta Maria Claudia Cabral.

Maria Claudia acredita que o suporte familiar é fundamental. “Eu vejo muito isso com meus amigos gays. Os que tiveram apoio familiar transitam no mundo ocupando o seu espaço, com autoestima e amor-próprio. Os que não tiveram, têm que batalhar mais para sair de um lugar apertado e se sentirem donos da própria história. Eu não jogo pedra nas mães que não aceitam os filhos, pois realmente não é fácil lidar com esta situação na sociedade conservadora em que vivemos. No entanto, o amor vence.”

A professora Georgina Martins parte de um princípio básico: “Não faça aos outros o que não quer que façam com você. O seu filho não é o que você quer, ele é o que é. Uma questão fundamental é não esconder isso de si mesmo. Quanto mais a gente oculta um sofrimento, mais ele se torna um fantasma. Se o seu filho é gay e você não sabe o que fazer, procure alguém para conversar. Converse com várias pessoas, ouça muitas opiniões, recicle suas ideias”, sugere.

O diálogo que a jornalista Leticia Perez não teve em casa, ela encontrou no ambiente familiar de Katia Ozório, sua companheira. “Na casa dela, as pessoas conversam sobre isso e então eu passei a falar mais sobre minha orientação afetiva e a ganhar voz. Eu percebi que se não me expressasse, estaria completamente anulada. Eu acho muito legal a maneira como a Leda, a mãe da Katia, age. Hoje temos uma amizade que vai além da minha relação com a Katia.”

“A Leticia é a companheira da minha filha, uma pessoa da nossa família. Eu tenho duas netas e elas cresceram vendo as duas tias se amarem e se beijarem em público. É uma geração que já vem com a cabeça mais aberta e isso é muito bonito”, afirma Leda Ozório.

7.4.15

rigorosa


se você fosse assim todos os dias,
seríamos felizes para sempre. 

mas logo você fica fria
e esta fotografia vira apenas a promessa de um
passado recente.

#portoalegre, você é tão impiedosa!
sorte nossa que o amor é indulgente!