29.1.14

na chuva pra me molhar!



minha morada não tem beiras: 
minha casa é em todo lugar. 
tenho família: a humanidade. 
sou qualquer olho, em qualquer cidade. 

sou pé descalço, fome, 
vaidade. bicho solto, sonho, 
saudade. sorriso franco, 
teu nome é meu lar. 

nascida e criada no planeta terra, 
frequentadora assídua do meu caminho, 
coleciono tropeço feito passo de dança: 
por onde eu vou, sempre posso voltar. 

sou torta infinita até no pensar: 
me apontam o dedo, entendo horizonte. 
me metem medo, eu crio uma ponte: 
onde ele se esconde também sei chegar. 

me desfiz dos tapetes não lembro nem quando. 
sujeira à vista? melhor pra limpar! 
carrego no peito um mundo gigante: 
leveza na vida é viver sem pesar! 

ganhei uma estrada de sorte e azar: tem beco, oceano, 
montanha, roleta, perda, ganho. tem amor e tem mar. 
se é coragem o que eu careço para ir adiante sem desperdiçar,
aviso a quem for preciso: 

coragem não vai faltar!

imagem: mariana belém

27.1.14

28.11.13

transmutação



eu travei o corpo, 
enrijeci a carne, 
eu não dormi. 

eu trinquei os dentes. 
eu mudei de cor. 
de credo. de hábito. 

de hálito. 

eu morri de medo! 
eu caí de cama. 

eu doí 
de abstenção 
de ti. 

depois veio a primavera. 
e eu desenhei 
borboletas na pele. 
irmanei com o vento, 
comigo, 
com o tempo...

sorri cada um dos meus gritos. 

e, lentamente, 
o amor 
voou 
voou
voou 


imagem: paula nicho cumez.

27.11.13

fermentação

quando a vida estiver dura, 
traz um punhado de uvas. 
finca teu olho no meu. 
esmaga bem minha cintura. 

que contigo enraizo 
- ora fresca, ora madura - 
com o corpo amasso a fruta, 
crio novos horizontes. 
vem a sede, dou a fonte. 
realizo, quebro jura. 

depois, rodopio assanhada 
até te fazer tontura. 

 ou virar vinho na tua loucura.

zen % sem juros



quando dezembro vai chegando, eu me sinto mais ensimesmada que o de praxe. me recolho. ando mais devagar. evito um pouco os desconhecidos. é como se eu precisasse de silêncios triplicados, talvez para amenizar em mim este excesso de luzinhas que piscam e piscam sem parar por toda a paisagem. 

dezembro sintoniza numa frequência que se contrapõe ao desabrochar da primavera: passos apressados e olhares inquietos se cruzam pela cidade. ninguém se demora em nada. sem falar no disparate do tal papai noel. numa boa, quem é o papai noel? há tantas fantasias e mensagens mais bonitas para passar para as crianças.

mas não. papai noel é algoz e dita as regras: listas de compras, preparativos para a ceia, balanços, perspectivas, cartão de crédito, tia chata distante, amigo-secreto. sabe, respeito muito quem realmente se alegra fazendo estas coisas. não é o meu caso. se eu fizesse, seria por pura obrigação, para agradar aos outros ou pior ainda: simplesmente porque todo mundo faz.

pois não pense que é fácil: como assim você não vai passar o natal com a sua família? é um momento tão importante, de reunir a todos, espírito natalino, solidariedade efêmera e blá. pois por anos a fio eu não passei o natal entre os meus. aproveitei os recessos no trabalho e me refugiei em lugares onde jamais houve renas, trenós ou luzinhas frenéticas. 

este ano, sim, repetirei o natal em família. é que ano passado foi muito bom. sem ceia especial, sem roupa nova, sem exagero de presentes: apenas colchas estendidas no gramado da casa da minha mãe e todos nós ali, rolando e trocando conversas como se fosse qualquer terça-feira, entre um brinde e outro. 

pra mim natal de verdade é assim: sem pressa, sem peru, sem santa claus, sem cinco vezes sem juros. mas com abraços sinceros e honestidade. a minha vida eu prefiro viver à vista em todos os sentidos - e este é meu humilde porém sincero presente para o futuro. 


imagem: tamara adams

12.9.13

ilimitado

.
.

quando eu amo nenhum
tempo é suficiente:
arranho um a um dos limites,
me mordo de desdém dos prazos,
arranco os ponteiros com os dentes.
.
.
.
.

21.5.13

gavetas

a gaveta
abre e fecha,
guarda, exala, esconde,
mostra, induz.

a gaveta
é o poleiro do xereta,
o paraíso da bagunça,
o ganha-pão da dona traça,
o apagão da conta de luz.

a gaveta,
gavetinha, também abriga
coisas de amor: versos
inacabados, confissões
jamais endereçadas,
frestinhas de dor.

as gavetas
são as casas
das lembranças
e dos esquecimentos.

o refúgio dos badulaques,
das coisas por fazer.
das surpresas presas
sei lá o porquê.

talvez por falta de tempo.
talvez, excesso de pressa...

misteriosas, ninguém sabe
se sentem saudade,
ecoam, morrem ou mudam de cor...

longe de quem quer
que for,

as gavetas
voam

12.5.13

você é muito exigente!


a primeira vez que ouvi isso foi assim: "mas, fernanda, você já se deu conta de que é uma pessoa muito exigente, né?". não, eu nunca havia me dado conta. a pergunta foi proferida faz anos, durante uma sessão de terapia, pelo adriano facioli. de pronto, parecia até piada, mas como ele é um cara muito importante no meu desenvolvimento humano, resolvi dar-lhe ouvidos e levar o questionamento a sério. 

a primeira atitude foi fazer enquetes com os amigos. "hei, você acha que eu sou muito exigente?" umas mais delicadas que as outras, todas as pessoas disseram que sim. isso foi uma surpresa para mim! pudera, uma característica básica das pessoas exigentes, descobri depois, é que elas acreditam cegamente que estão fazendo e cobrando de menos - de si e dos outros. eu sempre pensei que eu era uma pessoa de boníssima, megaflexível, de fácil aceitação. 

não sou. quero sempre ser o melhor que eu puder. tenho raiva das minhas limitações e quero transcendê-las com toda minha energia. esse meu desejo se espraia especialmente no âmbito das minhas relações mais próximas e íntimas. com o público em geral costumo ser bem mais benevolente, o que acaba fazendo com que a maior parte das pessoas não note esta minha característica. mas já entendi que não é fácil conviver comigo. 

o bom é inimigo do ótimo, acreditamos, os exigentes. e, claro, isso tem implicações graves na vida - tanto boas quanto ruins. no entanto, descobrir-me exigente não me fez uma pessoa menos exigente. no fundo, não acho que isso seja um defeito irremediável. só é preciso dosar melhor. realmente não aceito que as coisas sejam pela metade. eu quero inteiro. quero a vida inteira, plena. 

mas o insight trazido pelo adriano à minha história me levou a ter uma relação um pouco mais amigável com as barreiras pessoais e alheias. busco ser uma exigente cada vez mais consciente e menos inconsequente. afinal, como posso saber o que me basta se eu não for além? quem poderia traçar as linhas da suficiência? quem testa os limites por mim? 

no meu jeito de levar a vida, é preciso ir longe demais para descobrir até onde se deve ir. quero salvar todas as minhas dúvidas de cada uma das minhas certezas e ir adiante. quero saber-me pequena, ínfima e acreditar que posso posso mais. podemos, todos. 

sinceramente, eu não vim ao mundo a passeio. vim aprender, compartilhar, amar e ser feliz. e essa é uma equação que não se resolve na teoria, é na prática do dia-a-dia, errando e acertando, correndo riscos. no final das minhas contas, o saldo é positivo, mas tem sempre um aviso no vermelho, me apontando que apenas os sonhos e a insatisfação me fazem caminhar.


imagem: rose wong

11.5.13

incendiária





pra ti, meu amor,
trago a mesa sempre posta.
flores, taças, toalhas,
talheres bem dispostos
e velas incendiárias
(pra quando me deres as costas).
pois tão certo quanto a fome
é teu desgosto ao meu tempero
- insaciável desespero
de um apetite sem resposta.


como de costume, cumprimos a ceia sem trocar uma palavra.
- último jantar de nosso mortal silêncio.

com a memória retida
em tanta coisa não dita,
vou da sala até a cozinha,
dando facadas no tempo,
cuspindo álcool no chão.
medito enquanto fito
as labaredas em ascensão,
o cheiro acre pela casa,
o colorido dos teus trapos,
teu corpo queimando inteiro
e eu jogando guardanapos.



imagem: boligán

4.5.13

indo




vou voar
pela mata
dentro d'água
pedalar


vou correndo
devagar

noite afora
pendular

sem ter tempo

nem ter hora
caminho
pra chegar

vou morando

sem demora
pelos becos
do ficar