9.3.12

o menino






cheio de fome, o menino vai.
num ritmo arrastado e lento,
vai sem ter mesmo onde ir...
quem sabe a sorte sopra ao vento?
um trocado aqui, outro ali.
mas vai logo, menino!
te arranca deste lugar bonito!
não vês que não combina contigo?


sob a aura protetora,
sob a guia condutora,
sob olhos marejados da culpa
de quem não te vê, vai menino...
vai sem futuro.
mão alguma jamais te passará calor.
um cachorro, um bêbado,
um soco no escuro.
ninguém sente a tua dor?
ninguém canta ao teu ouvido?
deixa de sonhos, menino!


melodia é teu estômago contraído...
lasca uma banda de pão velho
e ludibria o vazio ignorado pelo teu irmão cego,
teu irmão empalhado.
então, há lugar para dignidade?
será mesmo que deus existe?
há fé que baste?


ninguém ama o menino triste.
e o menino vira um traste.
de metal em punho, o menino vai.
sou tua homônima, menino.
que pode tua faca contra o frio que te corta?
que lâmina rompe tua falta de carinho?
quem cura teu corpo talhado de solidão?


é tão custoso teu itinerário.
e ninguém te vê, menino.
e ninguém te sabe.
se ninguém vê, o menino invade.
se multiplica pela cidade.


tua normalidade vocifera anônima.
restos de planos.
ratos, meninos e restos.
restos humanos.
num delírio de classe,
a madame aponta o dedo em riste:
pega ladrão! pega ladrão!
e o palco inteiro vai ao chão:


taí, menino! taí a explicação!
todos te servem à vontade.
o banquete é de miséria.
comensais da contradição.

Ilustração de Gilmar Fraga retirada do blog Tinta China.

meus ais

tem vezes que simplesmente não importa: penso com o fígado. escrevo a pleno pulmão. uma letrinha atrás das outras, o que vier na minha cabeça, escrevo para transbordar. e ficar pela boca de novo. pra ficar por pouco. esperando a próxima gota que sempre vem acompanhada de novas gotas, chuva, chuva, chuvarada. 

minha enxurrada 
arrancando as flores 
do cerrado de mim. 

..............e vem o sol. e tudo brilha. e tudo seca. o fogo pega e devasta, devasta. é quando as raízes buscam água lá no fundo, entranhadas na terra profunda que une todo o mundo. por baixo dos sais, na proa do cais que navega em direção em alto mar, debaixo da tempestade que confunde o oceano, escrevo para ficar em paz.

3.3.12

30 anos

ontem mesmo eu era uma menina serelepe subindo em árvores. logo caí nos dramas de ser adolescente, tropecei nos malabarismos diários para garantir o sustento - do pão e dessa coisa meio sem explicação que a gente simplifica chamando de alma. sim, a essa altura é fundamental saber que simplificar é preciso.

comigo foi assim: quando eu vi, foi ficando tudo tão complicado que não perder de vista a essência das coisas tornou-se um desafio básico, uma estratégia de sobrevivência nível 1. no entanto, o paradoxo dos 20 e poucos anos foi justamente descobrir que nada é tão complexo quanto ser simples...

também não precisei ser muito esperta para compreender que é verdade-verdadeira aquilo que nos dizem sobre o tempo: ele vem, oferece um tabuleiro com toda sorte de agoras e vai embora, sem dizer tchau nem olhar para trás. se tudo sair bem, ele nos deixa um saldo de boas saudades e recordações.

e não adianta insistir: o tempo não aceita fiado, tampouco deixa alguém no balcão de informações para quem a gente possa reclamar ou pedir o investimento de volta.


eis que então, um belo dia...

entre enredos de amigos, amores, perdas, conquistas, aprendizados e outros milagres da existência, eles chegam. os famosos 30 anos são mesmo implacáveis. os meus vieram anunciados por um turbilhão. um mar vivíssimo, que não me poupou de turbulências nem de calmarias.

meu aniversário foi domingo passado. estou de miniférias numa ilha chamada boipeba, na costa do dendê baiano. passei os últimos 7 dias no povoado de moreré, acampada. trata-se de um recantinho onde os ventos fazem as emoções da gente ventar de dentro para fora.

todas as vezes que eu vim aqui, uma pequena transformação estalou no meu  peito. moreré desperta, acolhe e transmuta o coração da gente. o senhorito vicente medaglia também veio conhecer este lugar de paisagens exuberantes e mutáveis.

mudei eu e mudou ele enquanto estivemos aqui. nosso amor também está cara nova. este é sobretudo um post de agradecimento e celebração ao vicente, que esverdejou meus 30 anos e chacoalhou minhas poeiras - que eu também já descobri que me namorar não é lá uma empreitada das mais fáceis... 

deixo aqui também este outro texto sobre fazer 30 anos, do affonso romano de sant'anna, o link para uma carta de tarot, além de beijos esparramados na minha família (especialmente na dona marion) e em todos os meus e minhas, que estão espalhados por este mundão sem porteira e que eu levo comigo aonde eu for.

7.2.12

mulher pacata

meu nome é nilza. eu estou vivendo um período de adaptação. quer dizer, faz um ano e meio já, mas isso não é nada perto dos 36 anos que eu vivi desgraçadamente com ele, debaixo do mesmo teto. tenho 53 anos e quatro netos. nem é bom contar pois a minha vida daria um livro. meus filhos estão bem, graças a deus. meu guri já têm dois rapazinhos, o mais velho dele é agarrado em mim que só vendo. minha nora cuida bem deles. do jeito dela, mas cuida.

eu me separei no final do ano retrasado. ele era alcoólotra, daqueles de beber perfume. não tinha hora do dia em que ele não recendia à bebida. mas naquela noite acabou. eu dei um basta nele. eu vivia dizendo que um dia eu dava um jeito naquela situação, podia demorar, mas quando eu saísse não voltaria nunca mais, pelo menos não enquanto eu tivesse vergonha na cara. eram umas sete da tarde quando ele chegou, arrebentando o portão, trocando as pernas.

eu tava na cozinha conversando com o meu filho e a minha filha. o meu genro também tava lá. eu não sei até hoje o que deu naquele homem, mas ele entrou porta adentro e já partiu pra cima de mim. ele tava possuído, dizendo que eu não prestava. uma fúria que eu nunca tinha visto igual. maldisse até a existência dos nossos filhos. começou a jogar as coisas no chão, tudo o que via pela frente, ninguém segurava. ele nunca quis que eu engravidasse.

se a janaína e o alexander tão aí hoje, os dois com saúde e família, foi porque eu lutei para eles nascerem. o agenor não aceitava de jeito nenhum. casei com 17 anos, queria sair da casa dos meus pais. ele não bebia na época, era seis anos mais velho que eu, tinha um trabalho de carteira assinada e gostava de passear. eu casei apaixonada. consegui estudar só até a quarta série, mas depois que meus filhos terminaram o colégio, cresceram e arranjaram trabalho, foi a minha vez.

eu voltei pra sala de aula aos 45 anos. fiz o eja, até a oitava série e depois o ensino médio - que no meu tempo se chamava colegial. a primeira vez que ele me bateu foi quando eu voltei a estudar. quando as crianças ainda eram pequenas, ele me deu lá uns tapas, mas não ficou nem marca. tive que ir dormir na casa da minha vizinha, tarde da noite, com a janaína ainda de colo. eu fiquei assustada com o ódio que ele tava de mim, me empurrando pela casa.

ele não era desses de me bater sempre, o problema dele é a bebida. era sábado quando ele chegou endiabrado daquele jeito, querendo confusão. meu genro, que não sabe da missa a metade, quis gritar mais alto que ele. aí o agenor começou a agredir a minha filha. eu levantei da cadeira, abri a gaveta, peguei um martelo de carne e acertei em cheio a mesa de vidro. ele nunca quis que meus filhos nascessem mas eu jurei pra mim mesma que jamais aceitaria que ele encostasse um dedo naqueles dois.

ficou todo mundo me olhando com cara de assustado. eu saí de casa no mesmo dia. nunca mais voltei. nesse meio tempo tive depressão, hernia de disco, morei de aluguel nos fundos de cinco casas diferentes. terminei o colégio e estou no primeiro semestre da faculdade. faço serviço social e tenho aprendido muita coisa com meus professores. é uma turma muito boa, onde eu posso me abrir sem sentir vergonha de tudo que eu passei. me defendo fazendo faxina. eu trabalhei 16 anos numa casa de família. eles eram bons para mim, uma gente cheia da grana.

mas agora se mudaram pra minas gerais. o filho deles tem problema com droga, é viciado e tá numa fazenda lá. o pai é violento. não, comigo. mas coitada da dona maria emília, sofria o diabo nas mãos daquele homem. foi lá que eu aprendi que gente rica é igual gente pobre. ele não bebia, mas ela apanhava muito mais do que eu. e ainda por cima via o filho se acabando no crack. 

é, minha filha, tem coisas que o dinheiro não compra. o meu sonho daqui pra frente é terminar meus estudos e trabalhar na minha área. o agenor é aposentado, ganha bem. agora, deu pra frequentar igreja, diz que parou de beber, me manda mensagem todo dia pedindo pra eu voltar. mas eu não volto nem que a vaca tussa.

eu não te disse que minha vida daria um livro? e isso não é nem a metade. mas diferente das histórias que eu leio na cadeira de realidade brasileira na faculdade, cada uma mais triste que a outra, a minha vai ter um final feliz. ah, vai! eu escutava o agenor falar de mim pros outros: ela é uma mulher pacata e cozinha bem. mulher pacata é o raio que o parta! eu não cheguei até aqui para dar errado. ou eu não me chamo nilza terezinha da silva. 

4.2.12


u n o

te quero
s
em qu
i n 
g u é m
v
eja

mesmo
q u e
algm visse,
duvido que
c
onseguisse
t
raduzir a
e s q 
i s i s t i s s e
deste 
amor
que lampeja
arde...
(
s e m       a l a r d e s)


discreto,
d e s t i l a d o
no
a z u l

da tarde.

3.2.12

minúsculas

.
.
.
escrever em minúsculas para evitar hierarquia entre as letras
subtrair as vírgulas para minimizar separações e usar ponto final com todo cuidado de modo a espantar conclusões e deixar tudo prestes a..
.
.
.
.

2.2.12

ímpar

rente ao corpo de iván
e a cintura de anna,
sinto meus olhos 
mergulharem no azul
do mar de havana.

ele tem cheiro de menta,
ela tem gosto de âmbar.
somos três pares 
descalços, pisoteando
a noite em chamas.


nossos beijos não cabem 
nos versos eu faço,
desconsolo de quem ama. 
nossa prosa, mais teimosa,
cria pontes, se esparrama.


vem a razão, nos detém:
somos três ilhas cubanas.
nossos desejos, no entanto, 
são cavalheiros e são damas 
e se metem pelos ventos...
      - consentidos… doidivanas…

28.1.12

descontextualizados

ah! se a gente se encontrasse
fora das circunstâncias...
e a atmosfera inteira fosse inerte.
menos nossas línguas, duas crianças...
salvo nossas pernas, puro flerte...

ah! se a gente se encontrasse
fora das circunstâncias...
sem pretexto ou contexto,
sem medo, dogma, endereço.
sem roupa nem nada.

eu saberia do teu princípio.
e te continuaria.

até o fim.. .
.

19.1.12

equilibrista

ser feliz agora ou depois? aguentar sofrimentos em prol de alguma recompensa dos deuses? presente e futuro estão em eterno diálogo nas mentes e corações humanos. negociamos o tempo todo com nós mesmos: poupar ou gastar? se jogar na balada ou dormir cedo? priorizar o trabalho ou os estudos? o prazer ou o dever?

as belezas fortuitas da vida atraem. mas ao calcular consequências com as quais não estamos dipostos a lidar, acabamos nos afastando de algumas delícias tentadoras. quando desejamos alguma coisa mas não tomamos uma atitude, estamos nos afastando do aqui e agora da vida.

a juventude, todos sabemos, não volta. e a velhice poderá ser longa, docemente ou não. construir o arco da vida de um período ao outro é uma missão revolucionária de todos os dias. pavimentar esse caminho em plena paz de espírito é uma tarefa que me parece improvável, senão impossível.

se por um lado a zona de conforto é agradável, por outro, a minha mente inquieta não tolera a acomodação. em outras palavras, o perfil "casado, fútil, cotidiano e tributável", como escreveu pessoa, não combina com a minha impulsividade quase 3.0. o preço que o futuro irá cobrar, ninguém sabe.


17.1.12

Mesa de bar

Eu teria dito que largaria tudo, que mal me importavam aquelas pessoas todas conversando amenidades em volta da gente. Teria levantado e te olhado estridente enquanto todas as outras bocas calavam. Devia ter aproveitado o momento de singelo sigilo, quando até o tilintar dos copos guardou silêncio pra te receber. Eu deveria ter ido até tua mesa onde, sentado e largado, sorria aquele riso suave de quem já bebeu doses pares. Aquele riso inebriado, de boca escancarada, libertador de vontades dissimuladas.


Teus dentes no meu peito, eu ficava imaginando, enquanto te olhava pateta, a dois metros de ti. Devia sinceramente ter me atirado no teu colo logo quando tu chegaste. Ter te feito entender que eras meu. Mas eu já sabia. Sabia que a gente se amaria loucamente, que seríamos líquido noites inteiras. E sempre acordaríamos secos um do outro. Sempre querendo mais. Sabia de ti na minha cama. Das minhas roupas no teu armário. Dos meus cds confundidos nos teus. Dos livros que ninguém mais saberia de quem eram.


Eu intuía teu cheiro. Horas a fio numa atmosfera que só nos dois poderíamos compreender. Poesia, marxismo, lirismo, budismo. Psico isto e aquilo. Bio, filo, sócio, epistemo, geo, cali; qualquer logia ou grafia. E haveria tanto tesão! Tanta língua sem nojo. Tanto gosto de seio e pescoço. Sabia que tu terias ciúmes do meu ex-namorado. Que perguntaria se ele me amava tão bem quanto tu. Sabia que brigaríamos, te taxaria machista, insensível, calhorda. Sabia que irias embora e levarias alguns cds meus ou teus. Sabia que voltarias. E que irias e voltarias muitas vezes.


Vozes intermediárias anunciavam a noite em que eu te ligaria dizendo que não, iria me atrasar, não poderia te acompanhar naquele jantar na casa do teu amigo muitíssimo enfadonho de longa data. Te pouparia do enfadonho - por este cinismo educado que a gente adquire ao tentar sempre economizar o outro dos nossos pensamentos mais limpos. E, antes de desligar, ter perguntaria se estava tudo bem. E tu dirias que sim, estava tudo certo. Uma resposta cansada e aborrecida, como se tudo o que esperasse de mim fosse a decepção. Como se eu te prorrogasse a vida.


Antevia o momento demasiado em que passado e futuro se tornariam carregados demais e esqueceríamos, eu e tu, de gozar o presente. Nos tornaríamos esquivos e evasivos como toda a gente. E estabeleceríamos a defesa. Emergiriam as culpas. Supus as amarras. E nossa ânsia paralela de desviar. Fugir das cortesias sem apreço. Dos abraços sem calor. Dos talões e cartões. Do crédito. Do débito. Das contas. E tantas outras correntes.


Já atinava minha insegurança pelo teu poder de fazer interesse nos outros. Teu amor inseduzível. E eu sofreria tanto. Choraria no teu peito. E seria menina de novo aos domingos no parque contigo. Previa os prazeres. As delícias a dois. A velha cegueira da verdade única. Sabia exatamente o que haveria de vir. Em nome da razão, mesmo sem perceber, tiraríamos proveito da fraqueza um do outro. E enumeraríamos cada um dos nossos defeitos, didaticamente.


Segunda-feira, a gente ali no bar. Dois metros ou cinco segundos de ti. Distante uma palavra do nosso futuro amor. Prestes ao que fosse. Eu realmente teria dito que mal me importava aquela gente toda, teria me lançado nas tuas mãos vazias de mim. Eu teria dito que largaria tudo. Mas não sei bem o que me deu. Quis nos livrar do perigo. Achei melhor não. Longe de tudo, pedi mais uma sem gelo. E fiquei lendo teus lábios, enquanto percorria meus medos.