28.8.14

um amor

um amor de carne e alma
com mãos que declaram
despertam

apontam
acalmam


um amor de vaidade

que vacila
magoa
some
pula
teme, teme, teme


e esconde as mãos

17.7.14

relações autênticas

eu sou do tipo que acredita, sim, que podemos encontrar uma pessoa com a qual desejaremos passar o resto da vida. mas sou ainda mais romântica: acredito profundamente que cada um de nós pode criar a sua própria forma de viver o grande amor.

isso pode muito bem significar ficar casada e monogâmica por 30 anos, mas também pode significar ter dois ou três namorados simultaneamente. por vários anos. meses. ou semanas. aliás, o tempo assume dimensões infinitas quando o assunto é amor. 


outras maneiras interessantes de manter uma relação amorosa pode ser morar junto ou separado, dormir em quartos diferentes, levar relacionamentos abertos, poligâmicos, iô-iô, ardentes, pasmaceiros: nenhuma destas formas ou características de organização afetiva me parece melhor do que a outra. 

homem não é tudo igual.
mulher não é tudo igual.


se somos seres diferentes, porque nossas formas de se relacionar haveriam de ser iguais? temos o direito de realizar nossa própria história!

se tem uma coisa que me subtrai a vida é ter que caber em funções sociais devidamente catalogadas para agradar aos outros. quantas gerações ainda hão de desperdiçar suas vidas seguindo roteiros de amor pré-estabelecidos simplesmente por temer o novo?

vejo que a falta de referências alternativas é um bloqueio para a inovação. não ter modelos para se apoiar realmente gera muita insegurança. mas quantos de nós ainda se agarrarão em relações frustradas apenas porque “é assim que todo mundo faz”?

entendo que para muitos mudar isso não é uma tarefa fácil. pelo menos para mim não é. questionar a própria vida é exigente emocionalmente e reclama muita responsabilidade. mas como a vida é uma só e estamos aqui para aprender, desconfio que vale a pena.

trata-se simplesmente de abandonar padrões que não nos servem e de enxergar nossos relacionamentos amorosos como elos construídos por nós mesmos, e não como meros modelos instituídos por aspectos socioculturais. 


os riscos são evidentes e os custos são altos: afinal, ninguém sabe onde esta estrada vai nos levar.

mas podemos tentar. na pior das hipóteses, morreremos na praia. na melhor das hipóteses descortinaremos um mundo fascinante, onde o amor é constelado por dúvidas indissolúveis, onde o outro se mostra como realmente é e nos abre caminhos para sermos o que realmente somos! e tudo isso é um mistério!


eu valorizo muitíssimo as minhas dúvidas, mas também tenho um punhadinho de convicções. tipo, estabelecer relações verdadeiras, profundas e autênticas: esta oportunidade eu simplesmente não quero perder! 

imagem: Julï Lesage

16.7.14

não roube do amor!



sou absolutamente a favor da expressão dos sentimentos, por menos bonitos que eles sejam. considero esta a maneira mais saudável de lidar com as emoções. tudo que a gente sente tem uma consequência. ela pode ser manifesta, como uma explosão de ciúmes ou irritação, por exemplo. mas também pode ser como uma implosão, que mina a alma com sensações nocivas e não raro nos come a saúde física. afinal, quem de nós nunca caiu de cama por somatizar coisas não ditas?

por isso, tento ser e me relacionar com pessoas que demonstram seus sentimentos. não apenas os sentimentos louváveis de alegria e satisfação. busco para o meu convívio pessoas com as quais eu possa ser eu mesma, plena de luz e sombra. o contrário também é verdadeiro: valorizo ter ao meu lado pessoas que quando se sentem machucadas por mim, expõem a sua dor. se mostram para que eu as veja, registre e aprenda. isso se chama confiança e confiança é fundamental.

considero terrível quando magôo alguém e a pessoa não demonstra reação. infelizmente, a letargia não significa que ela não sinta dor. é muito pior: significa que ela não se sente à vontade para se mostrar humana na minha presença. e ao meu ver isso é uma das coisas mais nocivas que pode acontecer entre pessoas que se amam. a habilidade de mostrar dor e desgosto é tão importante quanto a habilidade de percebê-las.

acredito que isso tudo seja ainda mais evidente quando se trata de um relacionamento amoroso entre casais. o acúmulo de pequenas dores pode ser transmutado com apoio mútuo. mas quando isso não acontece, pode se transformar num monstrengo de 27 cabeças que, aos poucos, vai devorando as bases do amor. e o pior: come também - sem dó nem piedade - a dádiva maior do amor que é a possibilidade de evolução conjunta.

15.7.14

sobre sentir





loucura, saudade, medo, raiva, paixão - a gente passa a vida etiquetando o que sente. buscamos compreender, guardar cada sentimento no local mais apropriado, represar, etiquetar, ter controle. mas, no fundo, nenhuma dessas estratégias adianta muito...

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à noite, antes de dormir, no escuro do quarto, em franco diálogo consigo mesmo, a gente bem sabe que as comportas do peito se abrem e já não é mais possível distinguir cada uma das milhares de sensações que nos inundam quando experimentamos um grande amor.

Arte: Albena Vatcheva