Entre as quadras
Na altura da 406 norte, a menina de vestido lilás e cabelos loiros despenteados brinca de roda com o pai. Nas proximidades, um jovem sem camisa troca o pneu do carro. Muita gente faz exercícios, corre, caminha, alonga.
Por onde se anda, o céu está num azul inevitável: impossível deixar de perceber. O casal sentado no banco, um ombro escorado no outro, sente a delicadeza do sol deixando os olhos fechados. O homem calvo e de pernas bem feitas passa por mim de bicicleta escutando emepetrês a todo volume.
Na 412, uma mulher apara os abacates que o rapaz de camiseta verde do che guevara arremessa com todo cuidado lá de cima da árvore. Mesmo assim, a fruta cai no chão. "Estourou?" - pergunta o garoto. "Não, foi amortizado pelos galhos"- responde a moça. "Amortizado? O certo é amortecido! ", corrige o pseudo-pós-comunista. A confusão dela rende gargalhadas divertidas aos dois.
Na 405, a avó joga a lista de compras pela janela. Debaixo do bloco, o netinho fica um pouco contrariado em ter que abandonar a brincadeira com os amiguinhos para ir até o mercadinho buscar os ingredientes do almoço. Um zelador pinta o meio fio do bloco, outro molha o jardim. Tem ainda o que varre a calçada, assoviando Roberto Carlos.
Pelo caminho, há ainda babás e mamães que empurram os carrinhos dos seus bebês, árvores que se diriam milenares, passarinhos de cantos diversos, flores. Na pracinha da 410, uma jovem habilidosa treina malabares. Pelo jeito embasbacado que os 20 meninos perto dali olham pra ela, concluí que a garota só pode ser a miss quadra, a dona do balacobaco, a rainha da cocada. E, pelo jeito altivo que tem, aposto que ela sabe muito bem disso.
Gosto de andar pela Asa Norte a qualquer hora do dia. Tem gente que diz que é tudo igual em Brasília. Considero muita ingenuidade pensar uma coisa dessas. Coisa de olho de principiante, desacostumado aos detalhes. Tem vezes que aproveito o passeio para repassar mentalmente os últimos acontecimentos. Às vezes, gosto de chorar de mansinho, anônima e exposta ao mundo.
Hoje, aproveitando as primeiras horas de luz, diante de tanta coisinha cotidiana, tanto sorriso bobo, tanta vidinha à toa, tanta entrelinha boa, o passeio serviu para que eu chegasse à conclusão de que só é possível ser feliz nesta sexta-feira. O resto é sabado. ;)
4.7.08
12.6.08
longi-amor II
não vou abrir mão
de estender os tapetes pro vento
e ganhar novas vias, festejar romarias,
este amor vem com tudo, desfila em meu peito,
saltitando adentro, saudar desafios.
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3.6.08
longi-amor
não quero esquecer
de romper a gravidade do tempo
e viver as sem-horas do dia
semanas afora, batidas no peito,
ecoando adentro, saudades a fio.
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28.5.08
blogosfera:
inquilinos do além moram aqui.
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Sonho:
Um homem me persegue por ruas de uma cidade histórica. Eu subo as ladeiras ofegante, ele quer me laçar com uma corda. Entro num túnel, ele vem atrás. Usa uma roupa colorida, como a de um bobo da corte. Seu intuito é me extrair uma costela, a que fica bem acima da cintura. Eu não entendo o por quê disso, mas pela cara grave que ele fazia havia um motivo sério, seríssimo. De repente o túnel virou uma passagem secreta que levava até a casa do meu potencial flagelador. Era um lugar amplo, edificado com grandes pedras cinzas. Havia recipientes de vidro com líquidos coloridos por todos os lados. Lustres feitos desse material. A cozinha era linda, cheia de utensílios antigos, todos os tipos de panelas de barro e colheres de pau. Ele estava sofrendo. Tinha que me quebrar a costela. Eu antecipava a dor dessa operação e sentia medo. Muito medo. Tentei convencê-lo de que aquilo não era necessário. Ele chorava diante dos meus argumentos, mas não mudaria de idéia por nada naquele mundo. Alguma coisa nessa história o fazia lembrar com forte mágoa da ex-mulher. Um mulher a quem amou muito. Antes de ser fraturada, diante do inevitável, acordei.
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26.5.08
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O último feriado
Ponho o pé na segunda-feira um tanto aturdida, mas livre de qualquer fadiga. O feriadão se foi. Tão vagaroso e tão presente que nem tive tempo de vê-lo partir. Nas vésperas, toda gente estava excitada. "É o último do ano". "É o último do ano!"
Para mim, foram dias dedicados ao descompromisso. Passei por eles diuturnamente ensimesmada. Pintei cartões, revi amigos, conheci outros, amei, li, dancei, dormi, corri, escrevi... Fiquei horas indagando o céu estrelado sem receber uma resposta sequer.
Ainda assim ou por isso mesmo, concluo que não sair da cidade aos feriados é uma estratégia acertada. Pequenas viagens às vezes me cansam. Qualquer nova paisagem, submetida a todos os sentidos num curto espaço de tempo, é um exagero para quem sente demais.
O universo é vasto. Tenho residência fixa neste planeta sem considerar as linhas que o dividem no mapa. Mas também há um mundo em mim. E no aconchego da minha casa, entre a intimidade das paredes, na companhia dos que escolhi, apago a luz, acendo as velas e me sinto feliz.
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23.5.08
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Diplomacia pelas janelas
Dele, só sei que gosta de pizza, de receber amigos e que é insone. Tinha uma namorada, mas acho que é coisa do passado. Atualmente, fica acordado até altas horas, geralmente sozinho, acompanhado apenas pela luminosidade de uma tela, que só pode ser o monitor do computador.
A televisão tenho certeza de que fica num outro cômodo, no quarto, imagino. Nunca trocamos uma palavra e eu não o reconheceria se dividíssimos a mesma calçada ou nos encontrássemos na fila padaria. Mesmo assim, eu e meu vizinho de frente selamos acordos silenciosos.Temos até certa intimidade, eu diria.
Da primeira vez que me dei conta de estar sendo observada desde o outro lado da rua, gelei. Era noite e eu molhava minhas plantas, completamente à vontade e sem roupa nenhuma, meu traje preferido de andar em casa. Com o jarro de água nas mãos, vi aqueles dois homens amparados na ampla janela, bebendo cerveja, as vistas fincadas no meu universo particular.
Quis me vestir, fechar a persiana, cavar um buraco no chão da sala, desaparecer. Mas em vez disso, agi com naturalidade. Respirei fundo e segui salvando as flores e os temperos do clima seco de Brasília.
Depois de alguns episódios desses, meu nu virou trivial e nunca mais ele e seus convidados pararam o que estavam fazendo para ficar espiando a vizinha peladona do quarto andar. Eu também já me acostumei a vê-lo andando pra lá e pra cá apenas de cuecas ou só com a toalha alaranjada enrolada na cintura, logo após sair do banho.
É o que eu chamo de triunfo diplomático da boa vizinhança. Nem ele analisa meus peitos nem eu reparo na marquinha de sunga dele.
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20.5.08
música do dia:
aqui.
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