18.5.08

Nus pelo Eixão!

O Eixão, uma das principais vias de Brasília, é um monumento à sociedade do automóvel. De segunda a sábado, carros e mais carros circulam pela pista, que une as duas asas da cidade-avião. O resultado disso é aquele lugar-comum de todas as metrópoles do País: engarrafamento, estresse, poluição, acidentes e mortes.

Aos domingos, no entanto, o acesso é vetado aos veículos e o Eixão vira uma grande avenida de lazer. Sem ligar para a aridez do asfalto, das 6h às 18h, pais ensinam seus filhos a andar de bicicleta, apaixonados passeiam de mãos dadas, moradores das imediações aproveitam o espaço para tomar sol e beber água de coco. E isso não é só. Tem ainda a cachorrada.

Imagine quantas daquelas cadelinhas da asa sul, enfiadas em sapatinhos ridículos que combinam com roupinhas ridículas, ficam contando os dias da semana para fugir do esquema apartamento-elevador- térreo-superquadra e sair correndo pela rua pavimentada, as orelhas ao vento, tinindo, rumo às lambidas dos cachorrinhos largadões que moram com estudantes de repúblicas na asa norte.

É uma coisa bacana de se ver, o encontro das raças. A liberdade de ir, vir, ir de novo, descansar à sombra de uma mangueira, alongar o corpo e só depois voltar para o mundo cão do metro quadrado, encaixotado e servil à especulação imobiliária.

Pois não é que esta semana li nos jornais que o secretário de Transportes do Distrito Federal acha por bem reabrir o Eixão ao grande público das quatro rodas aos domingos! O que deu nele? Aimeudeus que grande mentecapto! Sabe, eu realmente fico muito injuriada em pensar como é possível que um gestor público, um cidadão, um ser humano, que vive no mesmo planeta que eu, tenha uma visão tão medíocre sobre a importância de priorizar o pedestre.

Além de ser apenas um dia para os andarilhos contra sete para os motorizados, fechar o Eixão aos domingos envolve uma parafernália simbólica que, de certa forma, ajuda a polemizar ou, no mínimo, provocar reflexões sobre o tema trânsito entre a população do DF. É um assunto necessário, neste lugar onde não se vai nem à padaria sem tirar o carro da garagem.

Os motoristas passam e pensam, aborrecidos: "Não sei para quê fechar este Eixão. Agora, vou ter que fazer duas tesourinhas a mais para chegar ao clube". Já os donos dos tênis importados ou surrados, que pisoteiam a pista quente ao ritmo dos seus emepetrês, sonham: "Que maravilha se o Eixão fechasse aos sábados também". Na segunda-feira, os dois pontos de vista sentam-se lado a lado numa sala de repartição pública na Esplanada dos Ministérios e manifestam suas opiniões.

Tudo bem, é uma coisa simbólica, como já admiti e repito, mas o debate não é menos importante. É o tipo de discussão que pode levar a outras, como a quantidade de faixas de pedestres espalhada pela cidade. Tem gente que acha um absurdo ter que parar o carro toda hora só para alguém atravessar a rua. Outros, acham que aquele desenho listrado de branco no chão deveria virar cartão postal da capital federal.

Trocar idéias é saudável. Conversas podem mudar a ótica de (algumas) pessoas. Mas de uma coisa ninguém pode discordar: o transporte coletivo é um li-xo. É de só acreditar vendo a precariedade desse serviço público por aqui. As linhas são insuficientes e os trajetos limitados. Os coletivos, umas latas velhas.

Tenho acompanhado o notíciário. Primeiro, o secretário de Transportes disse que o fechamento do Eixão causa transtornos ao trânsito. É, realmente andar a pé deve ser uma tragédia irreparável no mundo do funcionário público classe média alta.

Depois, parece que o secretário repensou a cretinice que havia dito e defendeu que a pista fique aberta meio turno para cada uma das partes. Ou seja, manhã para os pedestres, todo o resto do dia para os motoristas.

Francamente, não é possível que uma intrepidez irrefletida dessas seja levada adiante. Agora, voto em enquetes pela internet e espero que a infeliz decisão seja revogada. Ou então vou dar meia dúzia de assovios e conclamar os amigos para protestar sem roupa bem no meio do Eixão.

Todos nus, de bandeira em riste. A cidadania dubiamente exposta. Pares e mais pares de bundas brancas à mostra, marchando sem compasso, pela via pública ensolarada. Por um uso mais racional das pernas e menos burro do carro. Por um trânsito menos violento. Pro domingo nascer feliz. Vamos?

5 comentarios:

Maria dijo...

sim!
e com a mão no bolso...

Anónimo dijo...

simbora!!!!! de bunda de fora...!!!


será a minha a mais branca?

beijos nega flor

Anónimo dijo...

desculpa, ai em cima sou eu a branca mucra

Anónimo dijo...

nús? demorô!!! quando!!!? Amanhã? Tô dentro , ou melhor, com a bunda de fora!!

FILIPY PARENTE

ADRIANO FACIOLI dijo...

belo texto, fernanda...
bj