12.9.08

Um choque na vida de seu Bureau


Num belo dia, seu Bureau acordou com os dois pés na vida. Ainda na cama, desatou as urgências, suspendeu as sangrias e extorquiu a pressa. Colocou o telefone no gancho, vestiu-se e foi até a cozinha beber água, enquanto ajeitava os imãs da geladeira. Gostava de vê-los assim, nivelados, simétricos, como se a disposição dos imãs pudesse imprimir certa organização à sua vida.
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Era uma segunda-feira quando seu Bureau despertou com o juízo no lugar: decidiu rever valores, trabalhar menos, sorrir mais. Em relatos controversos, os vizinhos juram que até ouviram seu Bureau cantarolar logo cedo, ao amanhecer. "Feliz da vida, assoviava O que é, o que é?, do Gonzaguinha", garantem uns. "Que nada! A melodia era meio triste", replicam outros.
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O certo é que naquela manhã, finalmente, seu Bureau havia conquistado a coragem para mudar de vida. Pra sempre. Separado há 10 anos (do segundo casamento), os filhos todos crescidos e encaminhados, 20 anos de serviço público, dois netos, nenhuma doença grave. Um currículo exemplar. "Coisa de virginiano, ascendente em capricórnio, meio do céu em touro", costumava dizer sua filha (aquariana) mais velha.
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É. Seguramente seu Bureau já havia cumprido todo o expediente burocrático requerido pela existência, em duas vias. Era hora de cuidar mais de si. Chega de prorrogar os pequenos prazeres. Oxalá os grandes! Que mal poderia haver em tirar um mês inteiro de férias? E era justamente isso que ele havia resolvido desde a noite anterior. Não existia outra hipótese: iria atrás do tempo perdido.
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Deve ter sido uma madrugada tortuosa. Um passeio pelas trilhas espinhosas da alma. Com todas as oportunidades sonegadas ao longo da vida pululando na sua cabeça. Dizendo: "Veja, se você tivesse ido por este caminho, poderia ter sido bem-aventurado". "Olha, eu sou aquele sonho que você deixou para lá. Não fosse sua covardia, estaria pleno agora".
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Bravamente, seu Bureau soube abrir mão do arrependimento. De um lado para o outro na cama, deliberou mentalmente sua nova rotina. Redesenhou prioridades. A lista era cheia de coisinhas bobas. Passar mais tempo com os netos, ir ao cinema, andar descalço na grama, aprender a tocar guitarra, cumprimentar desconhecidos, chupar mais picolé de milho verde e por aí vai.
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Encheu-se de compromissos essencialmente pessoais. E desejou, verdadeiramente, ser feliz. Nada poderia tê-lo feito tão bem! A cidade estava ensolarada e o devir pulsava no peito de seu Bureau. Nunca se sentiu tão disposto! Naquela segunda-feira tocaria a repartição por um passeio no parque. Decretou dia de folga, feriado pessoal.
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Antes de tudo, telefonou para os quatro filhos. Depois, para os amigos de longa data. Combinou almoços, passeios, cinema, jantares. Todos estranharam. Consultou agências de viagem, percorreu a programação cultural. Mesmo com as mãos tremendo e o coração chacoalhando no peito, conseguiu ligar também para Ela. Ela. Ela. A mulher do amor inconfessável. 
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Segundo a secretária do escritório, seu Bureau estava mais animado do que nunca quanto telefonou, avisando que não iria. "Parecia radiante. Não falou coisa com coisa. Me desejou tudo de bom e sugeriu que eu saísse mais cedo do trabalho para dar comida aos pombos na praça. Pode uma coisa dessas?", relembra, atônita.
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Ora bolas, aconteceu foi que finalmente seu Bureau entendeu que o mundo seguiria sua ordem caótica independente de ele ir trabalhar. Quando desligou o telefone, o que seu Bureau não podia imaginar é que que justamente aquele dia aconteceria também de ele tomar um leve choque elétrico da geladeira, tropeçar no declive da porta, escorregar no tapetinho e bater a cabeça na quina da pia.
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Dois dias depois, após interfonar sucessivamente sem resposta, preocupado pela ausência da rotina exata que seu Bureau mantinha há 10 anos, o zelador do prédio arrombou a porta. Dentro de um paletó cinza escuro e sapatos marrons, estatelado no chão da cozinha, ali jazia seu Bureau. A sobriedade do ambiente roubada apenas pelo sangue escandalosamente vermelho que escorria do seu corpo. Trágico. Muito trágico. Uma pena, disseram os vizinhos que fora, chegando. Realmente uma pena, todos consideravam.
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Seu Bureau não soube, mas no mesmo dia aconteceu da China tremer. Da inflação subir. Do presidente bater novo recorde de aprovação. Da sua filha mais nova descobrir que estava grávida. Do passarinho que morava na árvore da sua janela cantar num tom acima do habitual. Do mengão ganhar. Do seguro do carro vencer. Da flor se abrir. Da Bovespa cair. Igualzinho aconteceria se ele ainda estivesse vivo. Feliz ou não.
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Ah, uma coisa que certamente seu Bureau adoraria ter tomado conhecimento é que muitas pessoas compareceram ao seu velório. Inclusive Ela. E que estava linda debaixo de um chapéu preto, o colo delicadamente exposto pelo recorte do vestido, os dedos longos segurando um lenço branco nas mãos. E que Ela chorava dolorasamente. Um jeito de chorar que não deixava dúvida: o amor de seu Bureau era plenamente correspondido.

Imagem: Boligán

1 comentario:

Cínthya Verri dijo...

Fernanda,
conheci teu blog há uns 2 anos, através do Jaci. Não sei se eu já te escrevi antes, não lembro - afinal, a vontade é sempre muita e talvez ela tenha se esgueirado por dentro do meu usual correrio e se traduzido em um olá pra ti.
De qualquer modo, adoro tuas escritas, te acho uma linda nesses dizeres todos.
Um beijo meu pra ti.