5.5.16

Especialistas em si mesmas

Adeptas defendem ginecologia natural como um caminho de cura, autonomia e empoderamento da mulher



Antes de avançar na leitura deste texto, que tal uma pequena pausa? Feche os olhos, respire profundamente e observe como você se sente neste momento. Talvez você esteja com algum desconforto emocional, uma dorzinha nas costas, um cansaço acumulado, quem sabe até um pouquinho de cólica ou - que maravilha! - completamente saudável e equilibrada. Agora, pergunte a si mesma: o que você realmente entende sobre o funcionamento do seu corpo?


O fato é que sabemos pouco sobre nossos sistemas e ciclos. Claro, há uma sabedoria intrínseca sobre si mesma em cada mulher. E é nesse poderoso autoconhecimento que a ginecologia natural se sustenta. Ginecologia é literalmente “a ciência da mulher”, mas na medicina convencional acaba se restringindo à especialidade de tratar doenças ligadas ao sistema reprodutor feminino, útero, vagina e ovários. Com uma abordagem diferente, a ginecologia natural incorpora as dimensões emocionais e espirituais como imprescindíveis para identificar a origem de desequilíbrios ginecológicos. Além disso, os tratamentos podem utilizar ervas, alimentos, pedras, argila e outras terapias holísticas.

A obstetriz argentina Liliana Pogliani, 49, explica que a auto-observação é um princípio fundamental para manter o equilíbrio ginecológico. “Quando a mulher realiza uma escuta amorosa do seu corpo e das suas emoções, acaba entrando em contato profundo com o seu feminino, ela mesma é capaz de identificar a sua harmonia ou o seu desequilíbrio ginecológico. Muitas questões podem ser resolvidas com o uso de plantas medicinais, receitas caseiras e mudança de hábitos”, pontua.

A mestranda de antropologia Naíla Andrade, 33, é adepta da ginecologia natural e acredita que para manter a saúde em dia é fundamental mudar a visão que temos sobre nosso corpo. “Nós, mulheres, temos crenças e padrões antigos enraizados que repetimos inconscientemente. Por um lado a religião criando tabus sexuais e idealizando imagens femininas e por outro lado a ciência tentando nos transformar em máquinas”.

Mais responsabilidade e autonomia

Na prática, boa parte das mulheres acaba delegando os cuidados com a própria saúde aos médicos. A visita ao ginecologista, claro, não deve ser descartada. “A ginecologia natural não se opõe à medicina convencional. É bom fazer um check-up e obter um diagnóstico. Mas é essencial ter a consciência de que cada enfermidade física surge para que eu veja algo sobre mim mesma. É uma oportunidade de reconhecer que algo não está bem. O corpo é sábio e nos dá avisos”, sublinha Liliana.


Nesse sentido, a educadora perinatal e parteira Andressa Feltes, 27, vê a ginecologia natural como uma forma de conquista da autonomia. “É preciso que sejamos corajosas o suficiente para sair da zona de conforto. É muito fácil chegar no ginecologista, falar sobre sintomas, tomar um remedinho mágico e fim de papo. Acabou-se a dor e eu nem tive que me envolver em nada. Não tive que fazer grandes mudanças no meu ser, não tive que mexer nos meus padrões de comportamento e sigo assim, bem cômoda, como se nada estivesse acontecendo realmente na minha vida”, argumenta.

Naíla salienta que é necessário abandonar a ideia de que o corpo é uma máquina cujo funcionamento não entendemos e que precisa ser controlado por especialistas. “Tudo o que ingerimos, sentimos e fazemos se manifesta em nosso corpo e nossa saúde. Precisamos fazer essas conexões, ler esses sinais e conhecer as formas de lidar com ele. A ciência moderna produziu muitas cisões e dicotomias que persistem fortes ainda na mentalidade e nas práticas de hoje - como a separação corpo e mente, natureza e cultura, ciência e conhecimento tradicional”, destaca.

O exercício da ginecologia natural é, para Naíla, uma oportunidade de conectar-se consigo mesma e com outras mulheres. “Buscamos resgatar conhecimentos ancestrais, práticas que nossas avós costumavam fazer e que a ciência de povos não ocidentais vem cultivando há milênios. A essência disso está em observar a natureza ao redor e buscar relacionar nosso corpo com o que fazemos e vivemos. Não nos separando do mundo. O conhecimento da ciência pode contribuir muito se incorporado a essa visão, mas atualmente a ciência moderna está comprometida com indústrias farmacêuticas que transformam nosso corpo e nossa saúde em um grande negócio”.

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Aprendizado coletivo

A obstetriz Liliana mudou seu rumo profissional influenciada pelo conhecimento trazido por suas pacientes. “Eu atuei como parteira por mais de 20 anos em hospitais públicos e nascimentos domiciliares. As mulheres sempre tinham seus segredinhos de remédios naturais e eu fui testando em mim, estudando as bases científicas, e vi que havia muita sabedoria naquelas tradições orais que passavam de geração para geração”, diz. Atualmente, Liliana se dedica a compartilhar seus saberes sobre ginecologia natural em oficinas, cursos e círculos de mulheres dentro e fora da Argentina. “Tudo é factível de cura. O desequilíbrio ginecológico sempre vem para que eu amplie a confiança na minha capacidade de cura”, reforça.


A acupunturista e fitoterapeuta Mariana Almeida, 28, trabalha exclusivamente com mulheres e também ministra oficinas. “Conhecer o próprio corpo é uma questão de empoderamento. Quando eu me conheço, me sinto dona do meu corpo, assumo a responsabilidade por ele e passo a me cuidar mais”, destaca, acrescentando que é comum o fato de mulheres terem dificuldades em se relacionar com seus ciclos e sua sexualidade. “A maneira como a gente trata a menstruação, o tesão, a libido etc. está muito ligada à cultura do patriarcado”, avalia.

Na internet, a fitoterapeuta também é conhecida pelo codinome Senhora Verde. Além de manter páginas de dicas, Mariana edita a fanzine Manual de ervas para os ciclos femininos, que é distribuída online e conta com milhares de downloads, facilitando o acesso a informações básicas para feitios caseiros. “Somos perfeitas e orgânicas”, resume Andressa, que percorre o Brasil e outros países compartilhando informações com outras mulheres. “Eu já vi muitas mulheres curando-se de desequilíbrios fortes utilizando terapias naturais”.

Território sagrado

Historicamente sexualizado, moralizado ou tratado como um objeto para fins reprodutivos, até hoje o corpo feminino permanece um tabu. Ao trazer um retrato sobre a medicina e o corpo feminino entre os séculos XVI e XVII no Brasil, a historiadora Mary Del Priore nos aponta uma reflexão sobre esse tema. “O corpo feminino era visto, tanto por pregadores da Igreja católica quanto por médicos, como um palco nebuloso e obscuro em que Deus e o Diabo se digladiavam. Qualquer doença, qualquer mazela que atacasse a mulher, era interpretada como um indício da ira celestial contra pecados cometidos”, pontua Mary.



























Claro, 
muita coisa mudou de lá para cá, mas as semelhanças ainda são estridentes na vida das mulheres. Na opinião de Naíla, o autoconhecimento é o melhor caminho para mudar essa realidade. “Precisamos nos conhecer, nos olharmos, tocarmos, trocarmos com outras mulheres sem nojo ou vergonha. Precisamos olhar para nós mesmas, para o nosso corpo e conhecê-lo, sentir prazer com ele e sentir prazer em ser mulher. O resultado é libertador”, garante.

A doutora Liliana reforça esse ponto de vista: “Nossos corpos são sagrados. A partir do momento que me conheço e sinto o que se passa dentro de mim, estabeleço um diálogo com meu feminino que tem efeitos em todas as áreas da minha vida, inclusive na sexualidade. Algumas vezes o equilíbrio ginecológico é alterado simplesmente porque desrespeitamos o nosso ritmo durante o ato sexual. Às vezes a vagina precisa de mais tempo, mais suavidade. Noutras vezes, não estamos bem no relacionamento. Tudo influi”, sugere Liliana.

Existem muitas maneiras de exercitar o contato com o corpo: aprendendo a utilizar o espéculo ginecológico, observando texturas, cheiros e cores de nossos fluídos. “Podemos nos observar com espelhos, praticar a masturbação, ter uma relação amigável com nossos ciclos e buscar informação. Se eu percebo o meu corpo como um território sagrado, eu consigo estabelecer uma relação mais consciente com meu tesão e minha sexualidade”, destaca Mariana.

Outra boa receita para manter a saúde do corpo é ter orgasmos, ressalta Andressa, elencando inúmeros benefícios: “O orgasmo é poderoso pois libera toxinas, aumenta a quantidade de oxigênio no corpo, produz hormônios de felicidade, diminui estresse, ansiedade, depressão, mantém a musculatura uterina relaxada, evitando cólicas, TPM, e todos os outros desequilíbrios ginecológicos. Com a liberação dos fluídos do útero na hora do orgasmo, acontece uma limpeza natural, deixando a flora vaginal em constante transformação, evitando a proliferação de fungos e bactérias. E também porque é uma delícia, né?”