19.9.05

Arroz de confete e arame farpado

Bebo. Bebo por que querem que eu case. Tenha filhos. Um par, no mínimo. Esperam de mim uma carreira bem-sucedida. Com dias bem determinados. Agenda. Contas e talões pra me conferir status. A família. Os amigos. A televisão, o jornal, as revistas, os vizinhos, os desconhecidos e até minha noiva, menos a moça da loja, todos querem que eu case. Na alegria e na tristeza, estaremos juntos, ligados. Pouco importa se por laços de arame farpado.

O casamento institucionaliza os sentimentos. Mas não é só isso. Institucionaliza a necessidade burguesa de estabilidade e segurança. Muda até o nosso nome! Corrompe a vida sentimental das pessoas. Diminui a importância do desejo. Acaba com o sexo!

Não conheço um casal feliz. Um sequer. Conheço atores. Conheço os hipócritas, que anulam o próprio poder de produção e despendem toda a energia para construir fachadas. Pra alegrar os olhos alheios. E até os próprios olhos, nos casos em que o auto-conhecimento é também suprimido.

Estes casais querem é comprar coisas juntos. Serem respeitáveis. Para os mais vaidosos, o que vale é servir de referência. Despertar a admiração dos outros casais, dos filhos dos amigos, dos amigos dos filhos, dos colegas de trabalho. Uma miséria íntima que jamais satisfaz. À noite, deitam-se lado a lado na cama sem poder entender as angústias do parceiro. Ignoram-se mútua e profundamente. Ou são indiferentes mesmo. Dormem vazios ou cheios um do outro. Sonham qualquer coisa que alivie o tormento. Uma pena, realmente uma pena que seja assim.

Todo marido é frustrado. Observo muito por aí. Este homem que também bebe logo ali na outra mesa. Bebe para chegar em casa e suportar a mulher, sei bem. Bebe sem poder sair do poço onde se meteu. As mulheres são também umas infelizes silenciosas, que rangem os dentes atrás dos seus papéis.

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Na infância, meus pais eram do tipo vaidosos e demorou muito para que o castelo de açúcar esfarelasse. Antônio e Margarete são um modelo! exclamavam todos, com certa inveja. Até que um dia meu pai deu mole e veio à superfície a relação que mantinha com uma ninfeta três anos mais jovem que minha irmã. Minha mãe, coitada! Parecia mais infeliz pelo fato de o meu pai ter estragado todo o teatro do que pelo adultério. Pirou, a dona Margarete.

Mas foi muito bom pra ela. Remoçou uns dez anos, dos vinte que envelheceu desgraçadamente ao lado dele. Um homem muito bom, o meu pai. Casou-se mais três vezes depois disso. Pintou os cabelos. Mudou de carro. Adolesceu! Eu, que sempre achei aquela nossa relação familiar muitíssimo non-sense gostei mais de vê-lo humano e fraco, como realmente era.

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Mas isso não vem ao caso. O que me realment incomoda não é o casamento dos outros. Que se ferrem todos com suas vidas cênicas! Marcos, Beto, Carlos e até o Paulinho já casaram. Com exceção da Cris, esposa do Marcos, nos damos todos muito bem. Às vezes tenho medo de que já estejamos representando também. De que tudo seja uma grande farsa.

Cláudia, minha noiva, quis ser noiva depois de ser namorada. E agora quer ser esposa, ter filhos, uma casa na praia, um apartamento na cidade. É uma mulher muito inteligente, cheia de idéias criativas. Por que diabos não pensa noutra maneira de conjugar a vida, eu me pergunto. Não há dúvida que a amo. Não é disso que estou falando. Casamos mês que vem, se tudo sair como todos planejam. Já recebemos um punhado de presentes caríssimos. Ficamos muito lisonjeados, os dois. Abrimos pacotes, telefonamos para agradecer. Um casal muito fino.
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Hoje fui provar minha armadura, roupa de noivo. Conheci uma mulher. Letícia. Uns vinte e cinco. Muito bonita dentro da sua penumbra de viver isolada do mundo. Letícia trabalha na loja de roupas em que experimentei meu traje de príncipe encantado. Mas quer ser pintora. Tem dom, pude ver nas paredes. Sou filha da dona, ela me disse fincando alfinetes nas barras da calças.

Você não me parece muito ansioso com o casamento. Também, pudera, comentou enquanto me ajudava a abotoar as mangas da camisa, você é tão jovem pra se meter nessa! Vinham muitos como eu ali. Uns coitadinhos, ela achava. E ria debochada por que as mulheres, considera, são muito espertas. Apostava que minha futura esposa era uma destas mulheres tradicionais, uma destas cadelinhas comedidas e respeitáveis que cuidaria com todo zelo da imagem do casal, dos bens da família.

Nem sei se ela chegou a dizer cadelinhas, assim com todas as letras. Acho que não. Letícia, ao contrário do que se pode imaginar, não demonstrava nenhum amargor no jeito de dizer aquilo. Parecia mesmo contar um filme ao qual já assistiu muitas, muitas vezes. Um pouco de desdém e tédio, talvez. Conversamos rapidamente. Mas ela foi incômodo em tempo integral. Até agora tenho Letícia atravessada na garganta. Saí da loja com o eco de suas palavras nos meus ouvidos.

Ninguém resiste a tantas regras! Eu devia ter o que? Uns trinta e dois? Vinte e oito, corrigi. Nossa! Eu era realmente muito jovem e já me sentiria espremido por todos os ângulos, por todas as pessoas. Tem louco pra tudo, afinal. É bom que dá um suco, ela ironizou. São tantas as leis, você não acha? Ela largava as palavras de um jeito sem a menor responsabilidade, eu julguei. O bom é que nada na vida é definitivo, né? Ela finalizou.

Eu concordei, sem saber se realmente concordava. E saí da loja com o eco das palavras dela nos meus ouvidos: ninguém-resiste-a tantas-regras-eu-tinha-apenas-vinte-e-oito-ninguém-consegue-viver-com-tantas-leis-tantas-regrinhas-não-pode-isto-não-pode-aquilo-use-terno-compre-tal-pasta-de-dentes-sapato-horários-estas-burguesinhas-tradicionais-uma-mulher-que-eu-jamais-conheceria-comedida-respeitável-uns-coitadinhos-os-homens.
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Dirigi sem perceber mesmo onde ia. Percorri muitos e muitos quilômetros no automático. Senti angústia. Medo. Vergonha. Pensei nas últimas vezes que fiz amor com Cláudia. Fiquei observando os casais. Homens e mulheres, separadamente. Senti pena, pena, pena. O mundo parecia tão infeliz. Observei homens no supermercado, nos postos de gasolina, no trânsito. Lembrei dos que já havia visto no barbeiro, nas filas do açougue ou do cinema, no futebol. Pensei nos amigos. Uns parecem mais conformados que outros, mas todos têm um ar de desperdício. Como se ilustrassem sob seus olhos a vida, indo, saindo, esvaindo-se pelo ralo. Uma coisa muito triste de se ver.

Quando dei por mim estava no pontinho, o boteco que freqüentava nos tempos da faculdade. Bebo. Estou aqui há mais de duas horas, colocando tudo em xeque. (Menos a bunda das universitárias). Tento lembrar o que eu queria ser há dez anos atrás. Há dois anos atrás. Ontem. Bebo. Bebo para arejar este mês que seguirá até a data do casamento. O dia em que eu e Cláudia diremos sim à alegria e à tristeza. Em que mudaremos a aliança de dedo e isso irá significar que estaremos juntos, ligados. Laços dourados de arame farpado.

3 comentarios:

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