11.8.06

Defenestrar os demônios

A gente vê as pessoas por aí e nem imagina quantos demônios carregam consigo. Quanta angústia cabe num ser humano? Por que sempre respondemos que está tudo bem? Há um tratado social latente de que todos devemos ser felizes, radiantes, saltitantes. Temos que ser alegres, bem-sucedidos, acordados com padrões estéticos, levianos, sintéticos. Pessoas em série e devidamente catalogadas, que é pra caber em alguma prateleira deste infinito lugar-comum.

Não há espaço para a tristeza. Ninguém quer saber de gente triste. Eu, que nasci chorona, nunca entendi direito este pudor com as lágrimas. Chorar sempre me fez bem. Alguns mililitros e pronto! Recomeço tudo de novo, desoprimida, leve, satisfeita. E não tenho vergonha nenhuma. Verto meus sentimentos em qualquer lugar, é só sentir vontade. Assistindo a um filme ou a lua cheia. Discutindo com o namorado, lendo um romance, abraçando a mãe... Qualquer motivo é motivo pra eu me taduzir em pranto.

Tem gente que acha muito estranho, que sou um caso de depressão ambulante. Já ouvi até que sou bipolar e acho que sou mesmo. Pra mim, este é apenas mais um termo contemporâneo pra classificar nossos transtornos cotidianos. A vida é tão desproposita, por que eu não estaria em desordem? Entre certezas e dúvidas, sempre fico com as segundas.

Claro que disponho de meia dúzia de convicções. São elas que me fazem levantar da cama todos os dias e ir adiante. Acredito na capacidade que temos de transformar o meio, de aprender e compartilhar conhecimentos e sensações. Acredito no amor, na solidariedade.

Será que este nosso recato execessivo acerca da sensibilidade não está no fato de que somos todos uns carentes? Talvez nos envergonhemos tanto disso que acabamos por inventar escapes e criar inúmeras defesas. Temos medo. Logo, é mais seguro que o outro não saiba das nossas fraquezas.

Então, investimos em atividades que tragam prazer imediato ou simplemesmente satisfaçam nosso vácuo pessoal. Esoterismo, cerveja, ocultismo, uísque, academia, alimentação inadequada, relacionamentos nocivos, trabalho, trabalho, trabalho. Aliás, acho que ser insuportavelmente eficiente é umas das fugas mais procuradas. É bem vista e facilmente aceita, principalmente pelo chefe ou dono da empresa.

Afinal, temos mesmo que ocupar os dias, fazer planos, cumprir metas. Investir na profissão é só mais uma delas. A gente precisa se cuidar. Não deixar o almoço passar por sanduíche, o sono por televisão, o coração por músculo. Ao invés das lágrimas, cedemos lugar ao "silencioso desespero", de Thoreau. A gente se deixa pra depois.

Sei que o "aqui e agora" é a fina flor dos clichês, mas não tem outro jeito. Talvez o que a gente precise seja prestar mais atenção. Aprender a dizer não e fazer o sim sair mais sincero. Se concentrar neste momento. Olhar no olho. Atentar para o íntimo. Saber-nos ínfimos. Respeitar os ritmos. Defenestrar emoções. E (por quê não?) deixar a lágrima cair.

2 comentarios:

Juan Saavedra dijo...

Parei por acaso nesse post - por acaso, náo, p[elo Google, a partir da citação a Thoreau. E me identifiquei.

Luciana dijo...

Nanda sempre...
Hoje chorei.
Na hora do almoço, na frente de um amigo. Ele, claro, se desesperou (homens se desesperam com choro, já percebeu?)... Como eu, mulher de fibra, choro com uma coisa dessas? Pois é, meu amigo... Eu choro por muito menos. Quer ver?