30.6.10

improvável e contemporânea (parte I)

o que me traz aqui? eis uma pergunta que me faço desde a sala de espera. antes, até... aliás, eu não aguardava um questionamento desses, tão simplista você não acha? quer dizer, o mundo está em colapso, por que eu não viria aqui? classe média, você sabe...embrutecida pela amargura da impotência diante do que está feito. como assim o que está feito? você, hein! cada pergunta...não parece lhufas com o que eu esperava de um pscicanalista.

mas o que eu estou dizendo, o que quero dizer, é que as regras sociais de convivência criam um imobilismo, uma apatia, uma descrença mesmo... não tem aquela música do cazuza "eu vou pagar a conta do analista para nunca mais ter que saber quem eu sou?" pois é. é exatamente assim que me sinto. é por isso que estou aqui. você me pergunta qual é meu sofrimento e isso me deixa resignada, quase depressiva.

sabe, eu não sou viciada em sexo ou outras drogas, não tenho síndrome do pânico, não estou disposta a ser convencida de que vivi exageradamente ou não vivi o suficiente este tal complexo de édipo. eu sou casada e tenho dois filhos. é, tenho um casal - um menino de 12 e uma menina mais moça, de 8. na verdade, fui casada. sim, fui, não sou mais. normal: faço parte da moderna família brasileira, afinal. não, não faz muito tempo que nos separamos. oito meses te parece muito tempo? para mim não é nada! se levarmos em conta o fato de que fui casada por 14 anos...

é, casei bem jovem, sim. eu era uma menina quando disse sim ao antônio e vim morar nesta cidade. nesta selva de pedras. são paulo é uma cidade muito individualista. cosmopolita, dizem alguns fãs. mas eu repito e repito: in-di-vi-du-a-lis-ta, assim com pausa e separação silábica, que é pra ilustrar melhor. reproduzimos os sem-teto, os sem-terra, os sem-arroz-nem-feijão, criamos e alimentamos ídolos sem-cérebro. enfim, é o torpor do capitalismo, né? banalizar as relações. desvalorizar a vida. a violência é uma coisa normal, você sabe.

sim, você sabe. eu é que não sei o que faço aqui. tanta gente passando fome e eu gastando uma quantia absurda para fazer análise com você. não, me desculpe, não é nada contra você. eu nem conheço você. você, no final das contas, só está fazendo seu trabalho. explorando um pouco a miséria alheia, é verdade. mas quem não está? eu? eu sou jornalista. a pior das categorias. por que nós, jornalistas, pintamos a nós mesmos como porta-vozes da sociedade, o que nos faz mais hipócritas do que vocês, psicanalistas, que só recebem pra que nos sintamos menos descabidos dentro deste mundo de igualdades utópicas que alimentamos.

(silêncio). é... a utopia. já parou pra pensar na anestesia coletiva? no indivíduo de gesso? quando eu era mais jovem eu acreditava em tanta coisa. hoje sinto preguiça. hoje sinto um sono. um sono profundo que, à noite, vira um monstro de remorsos a me hipnotizar. uma culpa petulante que insiste em atrapalhar minhas oito horas de sono. uma miséria pessoal e egoísta. no fim, somos todos uns egoístas hipócritas.

eu nunca fiz terapia e sempre achei que era coisa de gente que...bem, melhor não dizer. não gosto de ser injusta ou preconceituosa. talvez seja só um desconforto de principiante. o caso é que estou um pouco constrangida por estar aqui e...como é mesmo seu nome? roberto? posso te chamar de beto? pois é beto, acho que sou refém da globalização, acredita? estes dias estava pensando: acho que sofro de pós-modernidade. meu deus! o que estou dizendo? eu sofro de uma contradição separada por um hífen. a vida não pode ser só isso.

1 comentario:

Marcio Nicolau dijo...

"a vida não pode ser só isso".

E não é.