4.7.08

Entre as quadras

Na altura da 406 norte, a menina de vestido lilás e cabelos loiros despenteados brinca de roda com o pai. Nas proximidades, um jovem sem camisa troca o pneu do carro. Muita gente faz exercícios, corre, caminha, alonga.

Por onde se anda, o céu está num azul inevitável: impossível deixar de perceber. O casal sentado no banco, um ombro escorado no outro, sente a delicadeza do sol deixando os olhos fechados. O homem calvo e de pernas bem feitas passa por mim de bicicleta escutando emepetrês a todo volume.

Na 412, uma mulher apara os abacates que o rapaz de camiseta verde do che guevara arremessa com todo cuidado lá de cima da árvore. Mesmo assim, a fruta cai no chão. "Estourou?" - pergunta o garoto. "Não, foi amortizado pelos galhos"- responde a moça. "Amortizado? O certo é amortecido! ", corrige o pseudo-pós-comunista. A confusão dela rende gargalhadas divertidas aos dois.

Na 405, a avó joga a lista de compras pela janela. Debaixo do bloco, o netinho fica um pouco contrariado em ter que abandonar a brincadeira com os amiguinhos para ir até o mercadinho buscar os ingredientes do almoço. Um zelador pinta o meio fio do bloco, outro molha o jardim. Tem ainda o que varre a calçada, assoviando Roberto Carlos.

Pelo caminho, há ainda babás e mamães que empurram os carrinhos dos seus bebês, árvores que se diriam milenares, passarinhos de cantos diversos, flores. Na pracinha da 410, uma jovem habilidosa treina malabares. Pelo jeito embasbacado que os 20 meninos perto dali olham pra ela, concluí que a garota só pode ser a miss quadra, a dona do balacobaco, a rainha da cocada. E, pelo jeito altivo que tem, aposto que ela sabe muito bem disso.

Gosto de andar pela Asa Norte a qualquer hora do dia. Tem gente que diz que é tudo igual em Brasília. Considero muita ingenuidade pensar uma coisa dessas. Coisa de olho de principiante, desacostumado aos detalhes. Tem vezes que aproveito o passeio para repassar mentalmente os últimos acontecimentos. Às vezes, gosto de chorar de mansinho, anônima e exposta ao mundo.

Hoje, aproveitando as primeiras horas de luz, diante de tanta coisinha cotidiana, tanto sorriso bobo, tanta vidinha à toa, tanta entrelinha boa, o passeio serviu para que eu chegasse à conclusão de que só é possível ser feliz nesta sexta-feira. O resto é sabado. ;)

3 comentarios:

Maria dijo...

ai, que sexta feliz!
faltou dizer que na 413 tem uma senhora, que ganhou a alcunha de "véia", que é dona de um mercadinho e que ri pra todo mundo.
:)

Rodolfo Godoi dijo...

Brasília família nas manhãs de sexta.Já nas madrugadas...

Ma Santha dijo...

post no mínimo instigante para alguém que não conhece Brasilia e é louca pra fazê-lo.

...acredito ainda, que isso tudo seja uma mínima parte.