30.5.12

aluna exemplar?


isso aconteceu na primeira série, quando eu tinha 7 anos, mas até hoje não me sai da memória. era uma segunda-feira, dia em que a professora ana lúcia devolvia corrigidos os trabalhinhos da turma – tarefa a qual, imagino, ela se dedicava durante os finais de semana, entre um e outro afazer doméstico. o fato é que quando a segunda-feira chegava, além de levarmos o restinho de euforia do sábado e do domingo para a sala de aula, eu e meus coleguinhas eramos acometidos por essa ansiedade extra de receber as atividades já avaliadas pela professora.

ana lúcia era cheia de esmeros: quando algum aluno ou aluna se saía muito bem, ela desenhava estrelinhas na cabeceira da folha e escrevia coisas como “parabéns!” ou “excelente!”. os estudantes que não correspondiam às suas expectativas, no entanto, não eram agraciados pela mais cobiçada constelação de tinta bic de todo o primário. mas a professora ana lúcia era boazinha e nunca deixava de registrar frases de incentivo. “juntos vamos melhorar o seu desempenho!” é a que eu mais lembro de ter lido ao longo do ano – não no meu próprio caderno, pois a verdade é que àquela altura eu ainda era uma “aluna exemplar”, como a direção da escola costumava repetir aos meus pais.


naquela segunda-feira, entretanto, esse conceito de boa aluna começou a virar farelo na minha cabeça. sentada ao lado do meu querido colega dieguinho, eu senti – talvez pela pela primeira vez – aquele comichão de que “opa! há algo de podre no reino da dinamarca”. o causo é que o desenho que o dieguinho pintou não estava adequado ao gosto da professora. tratava-se de uma reprodução mimeografada da personagem de quadrinhos mônica, criada pelo cartunista maurício de souza, e a qual eu havia colorido exatamente como mandava o figurino das revistinhas: o vestido vermelho, a pele amarelada, o coelhinho de pelúcia azul.


mas o dieguinho não. aos 6 anos e meio, aquele menino doce, de olhos bem azuis, sardas e um pouco baixo para a nossa idade, achou por bem subverter a ditadura das cores e pintou a sua mônica como bem quis: um perna roxa e a outra laranja, os cabelos verde-limão, sim, porque não? e quem disse que os dois braços têm que ter a mesma tonalidade? diferente de mim, o dieguinho tomou o desenho livremente como um espaço para a sua própria produção artística, mas a recompensa pela ousadia foi a reprovação da professora, além de uma boa dose de gargalhadas e xacotas dos outros coleguinhas.


eu não achei a menor graça e estava convencida de que o desenho do dieguinho estava muito mais bonito e “correto” que o meu, uma típica “aluna exemplar”. além de expressar-se artisticamente, ao pintar o desenho de acordo com o seu próprio senso estético, o dieguinho estava questionando uma lógica de que “existem coisas que são assim e ponto final”. mas a contestação não é vista com bons olhos pela escola. ao contrário, parece que o papel central da educação é “satisfazer” a nossa criatividade, como se as interrogações tivessem que ser “sanadas” sempre com uma resposta.


nem mesmo a professora ana lúcia, sem dúvida uma das mais adoráveis e empenhadas educadoras que tive, foi capaz de fazer uma análise sobre o ocorrido. pior ainda: imagino que a própria ana lúcia tenha sido formada para reproduzir esses “saberes” tão universais quanto irrefletidos que definem o que é certo e errado. naquela fatídica segunda-feira, infelizmente, quem pagou o pato por este modelo “educativo” foi o meu colego dieguinho.


já faz muitos anos que não o vejo e espero que, na contramão do que lhe impunha a escola, ele tenha crescido com base no seu senso crítico. que não seja, portanto, um “home-feito”, como certamente o mundo lhe exige cotidianamente, mas que seja um homem em construção. a mim, dieguinho ensinou que ser uma “aluna exemplar” não é seguir roteiros predeterminados.


de alguma maneira, a mônica pós-punk de pernas bicolores do meu colega dieguinho me apontou um caminho diferente de aprendizagem. nele, não é possível encontrar fórmulas prontas nem respostas imediatas, mas sim um vasto jardim de interrogações. cada dúvida semeia uma curiosidade e assim se plantam novas descobertas.


claro, não é um processo tão imediato quanto marcar um x na alternativa correta ou reproduzir realidades idênticas às que nos contam os gibis e outros livros de história. no entanto, pode ser que o ato de estudar tenha mais a ver com deixar-se levar por certas subjetividades e perseguir a própria inquietação intelectual do que simplesmente aceitar uma coletânea de realidades incontestáveis.

2 comentarios:

Fifi dijo...

Eu tinha um Ênio. Não era Dieguinho, mas na primeira série o Ênio recebeu um bico e uma fralda da professora para que toda a turma visse que ele não conseguia aprender porque não havia deixado de ser um bebê. Ninguém, que eu me lembre, achava muita graça daquilo que a jovem perturbada professora fazia. Acho que era porque todos tinham medo que a próxima vítima fôssemos nós mesmos. Me alfabetizei não pelo método da abelhinha, nem pela contínua insistência dedicada de uma prô, mas pelo medo de errar. Medo não, desespero. Não tenho a menor ideia onde o Ênio deva estar atualmente. Tenho curiosidade.

kov dijo...

Gostei muito do seu relato - gosto muito de te ler, seja poesia ou prosa =)

Eu demorei beeem mais pra ter esse tipo de estalo - com certeza não foi antes dos 14 anos; aos 7 eu estaria balançando negativamente a cabeça julgando que o dieguinho havia "errado", aluno exemplar (pff) que era.

Mas também não demorou muito mais pra meu mundo certinho desmoronar em um monte de dúvidas e me tirar o chão - quisera ter tido essa sacada antes!