22.8.06

bruxa I
.
a bruxa moderna
quebrou a vassoura,
vendeu o castelo
e cortou as madeixas.

a bruxa moderna
agora é loura,
e só calça chinelo
nas aulas de gueixa.

17.8.06

dúvida hiperbólica V:

mas se eu abrir mão do livre-arbítrio alguém toma as decisões por mim?

11.8.06

Traço livre

É pra brincar até cansar!
Atitude

Roubei do Bicarato, mas tá lá no Fazendo Média:

"É CHEGADA A HORA DE MODIFICAR A REALIDADE"
Entrevista com o jornaleiro que decidiu parar de comercializar as revistas Veja, Época e Primeira Leitura

Leia aqui.
E a música é Sandra, do Gilberto Gil
Defenestrar os demônios

A gente vê as pessoas por aí e nem imagina quantos demônios carregam consigo. Quanta angústia cabe num ser humano? Por que sempre respondemos que está tudo bem? Há um tratado social latente de que todos devemos ser felizes, radiantes, saltitantes. Temos que ser alegres, bem-sucedidos, acordados com padrões estéticos, levianos, sintéticos. Pessoas em série e devidamente catalogadas, que é pra caber em alguma prateleira deste infinito lugar-comum.

Não há espaço para a tristeza. Ninguém quer saber de gente triste. Eu, que nasci chorona, nunca entendi direito este pudor com as lágrimas. Chorar sempre me fez bem. Alguns mililitros e pronto! Recomeço tudo de novo, desoprimida, leve, satisfeita. E não tenho vergonha nenhuma. Verto meus sentimentos em qualquer lugar, é só sentir vontade. Assistindo a um filme ou a lua cheia. Discutindo com o namorado, lendo um romance, abraçando a mãe... Qualquer motivo é motivo pra eu me taduzir em pranto.

Tem gente que acha muito estranho, que sou um caso de depressão ambulante. Já ouvi até que sou bipolar e acho que sou mesmo. Pra mim, este é apenas mais um termo contemporâneo pra classificar nossos transtornos cotidianos. A vida é tão desproposita, por que eu não estaria em desordem? Entre certezas e dúvidas, sempre fico com as segundas.

Claro que disponho de meia dúzia de convicções. São elas que me fazem levantar da cama todos os dias e ir adiante. Acredito na capacidade que temos de transformar o meio, de aprender e compartilhar conhecimentos e sensações. Acredito no amor, na solidariedade.

Será que este nosso recato execessivo acerca da sensibilidade não está no fato de que somos todos uns carentes? Talvez nos envergonhemos tanto disso que acabamos por inventar escapes e criar inúmeras defesas. Temos medo. Logo, é mais seguro que o outro não saiba das nossas fraquezas.

Então, investimos em atividades que tragam prazer imediato ou simplemesmente satisfaçam nosso vácuo pessoal. Esoterismo, cerveja, ocultismo, uísque, academia, alimentação inadequada, relacionamentos nocivos, trabalho, trabalho, trabalho. Aliás, acho que ser insuportavelmente eficiente é umas das fugas mais procuradas. É bem vista e facilmente aceita, principalmente pelo chefe ou dono da empresa.

Afinal, temos mesmo que ocupar os dias, fazer planos, cumprir metas. Investir na profissão é só mais uma delas. A gente precisa se cuidar. Não deixar o almoço passar por sanduíche, o sono por televisão, o coração por músculo. Ao invés das lágrimas, cedemos lugar ao "silencioso desespero", de Thoreau. A gente se deixa pra depois.

Sei que o "aqui e agora" é a fina flor dos clichês, mas não tem outro jeito. Talvez o que a gente precise seja prestar mais atenção. Aprender a dizer não e fazer o sim sair mais sincero. Se concentrar neste momento. Olhar no olho. Atentar para o íntimo. Saber-nos ínfimos. Respeitar os ritmos. Defenestrar emoções. E (por quê não?) deixar a lágrima cair.

4.8.06

coruja

A última edição da revista Época traz matéria de capa em que Inagaki aponta os 25 momentos da blogosfera brasileira.

o dpádua tá lá.

Julho de 2002:
Daniel Pádua cria o blogChalking, ferramenta que se torna conhecida na blogosfera mundial.

3.8.06

c i r c u n s p e t o:
.
te quero
sem que
n i n g u é m
veja
.
e mesmo
q u e
algm visse,
duvido que
conseguisse
traduzir a
e s q u i s i s t i s s e
deste amor
que lampeja
e arde...
(s e m a l a r d e s)
.
discreto,
d e s t i l a d o
no
a z u l

da tarde.

Eduardo Galeano

Na parede de um botequim de Madri,
um cartaz avisa:
Proibido cantar.

Na parede do aeroporto do Rio de Janeiro,
um aviso informa:
É proibido brincar com os carrinhos porta-bagagem.

Ou seja:
ainda existe gente que canta,
ainda existe gente que brinca.

2.8.06

teimosas

quem explica esta orquídea,
que, alheia à seca,
na contramão dos dias,
cria e recria
cores estapafúrdias:
verdes lúxurias,
violetas estripulias?

cheias desta demasia,
comum a toda beleza,
pétalas, garras e sépalas
são ninfetas abusadas
que umidecem a poeira noturna,
entorpecem a madrugada,
iluminam a treva soturna!

arrancadas da natureza
fazem do meu quarto um reino!
e se teimo em perder a leveza,
jogam pólen nos meus sonhos!
assumem diversos tamanhos
até me incendiarem certezas!

depois, caem vadias, desmaidas,
nesta solonência ornamentada
que a vaidade empresta às altezas.
por fim, emudecem brancas.
roxas, camaleôas, depravadas.
(deixando escandalizadas
as mais absurdas surpresas...)

1.8.06

Dedilhar

Tu, mulher amada,
és a força consumada
de tudo que não entendo.

Quantas cores tem tua pele?
Que sabores desconheço?
Quais palavras te ferem?
Onde está o teu começo?

Ah! Mulher amada, tanta
graça debaixo do teu vestido!
Teu corpo exala mistérios,
me provoca deletérios!
Convulsiona meus sentidos!

Tua anatomia, mulher amada,
é agora minha ciência!
Meu lugar de desacato!
Meu caminho inexato
onde peço clemência!

O teu ventre, amada mulher,
é inteiro o próprio fato!
Não é carne, nem matéria,
mas um vale de segredos!
Que consome minha miséria
e devora os meus dez dedos!