30.9.11

meu pai


após travar uma brava luta contra o câncer, meu pai, ronaldo barreto - a quem chamo carinhosamente de gordinho baleia =) - faleceu no dia 14 de setembro. foram meses de idas ao hospital, zilhões de exames, diagnósticos contraditórios e tratamentos pesados. ele sentia dor e a dor dele também doía na gente. ainda dói, claro, mas a morte de quem a gente ama revela, também, caminhos para aprendizados.

pessoalmente, entendo a morte como uma passagem, como sair da infância e partir para a adolescência, tornar-se adulto e assim por diante. no caso da morte, acredito que a pessoa evolua do plano material para o puramente espiritual. é a vida pedindo um espaço maior do que o corpo para manifestar-se na sua plenitude. 

acompanhei de perto os úlimos meses de vida do meu pai e posso dizer que foram (continuam sendo) os momentos mais especiais da minha própria vida. eu morei os últimos nove anos longe da minha família e nossa convivência não foi tão frequente quanto gostaríamos: eu vivendo no distrito federal e meu pai no rio grande do sul, o que tivemos nesse período foram finais de semana, feriados, visitas rápidas.

como este é um post declaradamente confessional, pontuo que desde a adolescência mantive uma relação difícil com meu pai. nunca faltou amor. nunca faltará. mas éramos um desafio um para o outro. eu pensava "a", ele pensava "z". aliás, verdade seja dita: ele era um cara complicado. cabeça dura ao extremo. trancafiado de emoções. tem gente que diz que sou bem parecida com ele, mas eu - obviamente - discordo =)

no entanto, desde maio, quando abandonei minha odisséia pela américa latina para ficar ao lado dele e da minha família, eu e meu pai nos ajustamos em muitas coisas. desfrutei muito da presença dele. aprendi demais com suas rabugices. compreendi coisas sobre o humano dele que minha cegueira de filha escondia. sei que vou levar meu pai comigo para todo o sempre e por isso não me maltrata tanto a sua ausência física.

ele ensinou muito para mim, meus irmãos e minha mãe - com quem esteve casado 39 anos! no fundo, só a gente sabe as profundezas da nossa relação familiar. os detalhes, as entrelinhas, as marcas na história de cada um, nossa coletânea de recordações - um eterno álbum de fotografias reveladas pelo coração. 

ainda está tudo muito recente: velório, enterro, pêsames, meus sentimentos, a casa vazia dele. para mim, é hora de renovar meus compromissos com a vida. refletir sobre o que, afinal de contas, eu vim fazer aqui neste mundo. definir prioridades. colocar energia nelas. diminuir meus danos. ampliar meus impactos positivos. fazer cada dia valer a pena, porque, nos final das contas, a morte também serve para lembrar que existe vida e que ela pode acabar a qualquer momento.

6 comentarios:

Maria Cláudia Cabral dijo...

querida, não havia visto este post. sinto pela dor da passagem de seu pai, mas acredito, como você que foi uma passagem e o que na verdade é bom. só não estamos é muito acostumadas com essa passagem radical que é despir-se do corpo material. besos e, lindo, como sempre, lindo texto. beijos...

valeria soares dijo...

Lindo texto!
Já passei por isso.
Lembre-se: "Há mais sabedoria na casa em que há luto..."

Boa semana!

Rodrigo dijo...

Oi Nanda, só li este post agora. Por mais que seja a "lei da vida", aquela regrinha básica que topamos quando decidimos vir para cá de que vamos incondicionalmente partir uma hora, lidar com isso é sempre uma situação dificil. Parabéns pelo texto e principalmente pela tua análise sobre a relação pai e filha.
Te desejo muita energia para atingir tudo aquilo que desejás no teu caminho.
"nada do que vivemos tem sentido, se não tocarmos o coração das pessoas..."(Cora Coralina)
Sabones.

Lua Nova dijo...

"...é a vida pedindo um espaço maior do que o corpo para manifestar-se na sua plenitude."

Um texto muito, muito lindo, e comovente pela sinceridade e a consciência presentes nele. Vc é uma pessoa especial e seu pai deve ter muito orgulho de vc. Que ele esteja bem, em franca recuperação e logo pronto para continuar sua caminhada nesta vida que, de fato, é um eterno aprendizado para nossa evolução.
Beijokas e meu carinho.

Anónimo dijo...

um abraço apertado.
sou pai e avô.
zeca

mario dijo...

"compreendi coisas sobre o humano dele que minha cegueira de filha escondia."

"a morte também serve para lembrar que existe vida e que ela pode acabar a qualquer momento."

leio sempre seu blog e sei que escreve mt bem. com este post não foi diferente, mas essas suas duas frases me tocaram mt e mostra a sua profundidade como escritora. mto obrigado por compartilhar sensações e sentimentos tão sinceros.