30.3.09

chá das cinco

tenho pensado muito na morte.

nenhuma urgência em morrer.

nada disso de sentir-me esgotada

ou tramar suicídios teatrais.

tenho pensado na morte como quem

fricciona cautela e curisodade. a morte

não cala nem fala. pacifica porque

certeira, completa e não se desfaz.

mas seria amorfa ou intensa?

traria alguma razão ou loucura?

uma nesguinha de fé?


a morte não me arrefece. suas faíscas

vão queimando meu peito verde das cores

que ainda vou dar. não penso a morte

com um começo tampouco me soa

um tropeço pelas calçadas do fim.

- jamais supus que ficaria para apagar

as luzes. e por isso não me comove

deixar saudade nos meus.

que faria a nostalgia senão acender

as velas e ressucitar desbotadas

lembranças?


pressentir a morte seria uma

delizadeza que jamais esqueceria.

sequer lembraria, afinal.

que venha sem fingir, eu espero.

e não fuja ao bom costume

da pontualidade: que tenha pressa,

mas nem tanta ao ponto de cabular-me

um brinde derradeiro para o chá.

se estiver chovendo, que seja verão.

e que me deixe molhar enquanto escolho

as folhas no jardim.

1 comentario:

Cínthya Verri dijo...

aaaah
como gosto do que escreve.
que beleza isso
beijo meu